domingo, 15 de novembro de 2015

V - Os Caminhos da Batalha Real

I – GENERALIDADES

A eminencia dum conflito leva possíveis contendores a procurar conhecer antecipadamente o local do confronto assim como a conduta previsível do adversário, para cada um poder neutralizar os pontos fortes do antagonista e simultaneamente rentabilizar os seus a seu favor. o propósito e conseguido pelo conhecimento atempado de varies assuntos:
- Inimigo (armamento, composição, disciplina, efectivo, instrução, etc.);
- Terreno (pode condicionar, dificultar ou impedir a conduta beligerante como também orientar a utilização dos sistemas de armas a utilizar);
- clima ou condições meteorológicas (capaz de dificultar ou impedir o controlo das forcas em operações, como afectar o uso do equipamento ).
A escolha do local do afrontamento, "campo de batalha", importante e complexa, e condicionada por múltiplos factores como a finalidade da acção, condições do terreno e itinerários a utilizar, linhas de abastecimento (livres e adequadas) e previsível conduta do adversário. O local materializa o objectivo decisivo, antecipadamente escolhido e estudado, onde cada beligerante procura aproveitar o terreno a seu favor, numa acção que exige a melhor coordenação dos meios utilizados. A forca no confronto tem três momentos distintos: "antes" (preparação)," durante" (luta), "depois" (fuga), que quando considerados permitem o seu correcto entendimento no cenário envolvente.

A batalha Real (de Aljubarrota) a Sul da Batalha e exemplo elucidativo. O deslocamento de grupos armados, por norma evitado, e condicionado e inseguro por diversos factores (segurança, velocidade, comodidade). O percurso da hoste portuguesa de Tomar a Porto de Mós, designado por residentes mais antigos, de Itcaminho de D. Nuno " tem duas etapas (Tornar-P. de Mós) e (P. de Mós - Porto da Cevada) no vale do rio Lena, que considerou:
- o património viário romano edificado na Península Ibérica (218A.C. - 711);
- caminhos compatíveis com a movimentação do apoio logístico das forcas;
- respeito pela verdade histórica e memoria de alguns residentes;
Os tópicos aliados a consulta documental e trabalho de campo (estudo, reconhecimento e observação do terreno aliado ao revestimento vegetal).
Aprendemos o passado colectivo numa perspectiva geral conforme a época, por regra alheia ao desempenho local, que pode impedir uma pesquisa alargada, conforme aos factos ocorridos.


II- ANTECEDENTES
D. João de Castela em finais de 1384, apos levantar o cerco a Lisboa, conduziu as forcas no regresso por Bombarral, Santarém, Golegã, Tomar, Chão de Couce, Miranda do Corvo, Coimbra, Celorico da Beira, Guarda e Fuenteguinaldo em Castela. Regressava irritado por ter fracassado a acção guerreira que comandara para derrubar D. Fernando e conquistar o reino de Portugal. O desconforto provocado por elevadas baixas sofridas pela acção dos heróicos defensores, agravadas pela peste, que sem piedade dizimara o exercito real. Enraivecido prometeu vingar-se sem demora no povo que ousara opor-se asua vontade, causara desonra e provocara tanta dor. As derrotas em Atoleiros, Trancoso e ter falhado a conquista de Elvas, que julgara de conquista rápida e fácil, não impediram a decisão de invadir Portugal pela Beira Alta. Decidido a garantir a decisão de vingar o desaire sofrido e obter o apoio de conselheiros contraries reuniu o conselho real em Ciudad Rodrigo (Castela) para cimentar a decisão de invadir Portugal.
Procurou convencer todos que a acção seria de passeio, não de confronto, pois iriam encontrar gente desunida, sem comando, mal armada, que face a exército tao poderoso e imponente fugiria a sete pés. Iniciou a invasão a meio de Junho, por Almeida, Pinhel, para próximo de Trancoso seguir para Celorico da Beira, onde instalou o comando para redigir o testamento e definir os sucessivos objectivos da marcha de invasão. Retomou a 1 de Agosto a marcha lenta, pela margem direita do Mondego (Fomos de Algodres, Mangualde, Oliveira do Conde, Mortágua, Mealhada) para Coimbra onde atravessou o rio, quase seco, por debaixo da ponte. O movimento do enorme exército invasor condicionado pelo apoio logístico de dois trens em que o "real", dianteiro, composto por 700 carretas e o "geral", traseiro, de inúmeras azémolas com mantimentos, armamento, coisas para comer, vender e também rebanhos com mais de 8.000 cabeças de bois, cabras e ovelhas.

D. João I de Portugal, reunido em Abrantes com reduzidas forcas, mandou chamar com urgência D. Nuno para afrontar o invasor nos eventuais eixos de penetração, pelo Alentejo (Estremoz, Avis, Bemposta e Abrantes) ou pela Beira interior (vale do Mondego). 

D. Nuno acudiu rápido e reuniu com o conselho real que era de opinião evitar-se o confronto com o invasor, invencível pelo tamanho e aparato, e aconselhava el-rei fazer estragos "talar os campos" na Andaluzia para obrigar o atacante a ir de imediato a sua terra em defesa da sua gente e do que era seu. Agastado pela postura, contraria ao compromisso real feito em Guimarães "fazer frente aos invasores", partiu com a hoste para Tomar, 7 de Agosto, para afrontar D. Juan de Castela.


O rei castelhano junto a Coimbra (Santa Clara, Antanhol e Taveiro) para marcar o azedume vingativo mandou patrulhar Montemor-o-Velho, Aveiro e Soure a castigar sem motivo "com sobeja crueldade" decepando mãos a homens, mulheres e gente não adulta, acrescida por vezes com a amputação da língua "se falavam o que não deviam". Optou por continuar para Sul por Soure e Pombal, que levou a forca portuguesa a sair de Tomar para Porto de Mas, base donde podia controlar o caminho para Santarém que em Cruz da Légua tinha condições para afrontar o invasor em andamento.

D. João e D. Nuno com as suas forcas, apos assistirem a missa na capela de S. Lourenço, junto ao rio Nabao, a saida de Tomar, "concertaram as suas batalhas" conforme os "olardos" (revistas), sendo os combatentes distribuídos por capacidades, aptidões e os capitães colocados nos lugares mais convenientes, decididos a honrar o compromisso real de Guimarães na Irmandade de Nossa Senhora da Oliveira. A hoste portuguesa saiu de Tomar a 11 de Agosto, sexta-feira, para a via romana "Olissipo-Bracara Augusta" dando inicio a I etapa do "caminho de D. Nuno" (Tomar- Porto de Mas).Era apoiada logisticamente por 200 carretas, 1.300 azémolas de carga e tiro e 1.500 solipedes de sela que condicionavam o deslocamento.


Tomou o caminho mais curto, compatível, discreto, a evitar "esculcas" (vigias) castelhanas para passar despercebido:
- Carregueiros;
- Sabacheira (assinalada com ponte datada de 1667;
- Seiya (templo onde D. Nuno rezou a Virgem, na ida e na volta);
- Ourem (ponte romana, utilizada pela Ala dos Namorados):
- Atouguia das Cabras na planície de Alveijares sinalizada pelas minas da capela de S. Sebastião incendiada pelos franceses em 1810. A hoste de postos de observação colocados no cimo dos montes mais elevados.

Realizou-se então o reconhecimento para os lados de Leiria que residentes designam por "Caminho de D. Nuno", IT etapa, (porto de Mós- Porto da Cevada), vale do rio Lena, onde o caminho teria sido:
- Descida do "castelo' para a "ponte do cavaleiro' (não transposta);
- marcha para jusante (cerca de 200 m) com saída a direita (caminho rural) que seguia "por cabeços altos);
- ponte romana (1) cia Freixa, sobre a ribeira da Freixa;
- via romana (1) enterrada junto a Casal do Menezes;
- ponte romana (1) do Coito, sobre a Ribeira de Alcanadas;
- quinta do Pinheiro;
- casal de Centas e Brancas, salinas famosas no reinado de D. Sancho I, que podem ter dado origem ao "caminho do sal" utilizado por carroças com pescado vindo da costa.
Será justo salientar o percurso do vale do Lena pela beleza, reduzida extensão (cerca de 6 km), diversa riqueza histórica e patrimonial em que destacamos a ponte do cavaleiro, românica do seculo XIII.



PARA SABER MAIS
MONTEIRO, Antonio de Almeida, o voto de el-rei D. João I antes da batalha real, Grafica de Coimbra 2, 2011;

SANTOS, Victor Portugal Valente dos, Campo de batalha, lugar de memoria, dissertação de mestrado da FLUL, 2011