domingo, 15 de novembro de 2015

II - Crise de 1383 a 1385


"Ala dos Namorados" pela nossa terra e pelas nossas damas

1. Panorama sociopolítico da Europa no seculo XIV

A Europa ocidental teve entre o séc. XII e séc. XIV (inicio) um período de vincado crescimento, progresso e bem-estar, que permitiu um aprofundamento sistematizado no pensamento e cultura de cada região, evidentes das torres altaneiras das catedrais góticas, símbolo de poder e abastança, consequente do aumento da área cultivada, crescimento urbano, intensificação das relações comerciais e crescimento das populações. A situação contudo entre 1 300 -1 400 piorou dramaticamente devido a crise múltipla (económica, social e politica) agravada por diversos factores. o séc. XIV interrompeu o bem-estar laboriosamente construído ao longo dos seculos, com prejuízo na harmonia entre pessoas, cidades e países, provocando situações de conflitualidade e agitação na sociedade. o espaço rural espelhava então uma sociedade marcadamente agrícola de "trabalhadores da terra", obrigados a irem viver para a cidade, onde já havia "mesteres" (profissão manual) em excesso, para fugirem a arbitrariedade injusta dos senhores rurais. Surgiu assim um desequilíbrio insuportável entre o valor dos salários e o custo de vida, espelhado com dor no mundo rural, que levou os mais pobres a procurar refugio nas cidades e provocou graves e frequentes períodos de fome.
A situação, agravada pela guerra dos 100 anos ", lesou com particular ferocidade o rural desprotegido, dependente do dono e senhor da terra, que para subsistir aumentou as rendas. o campesinato recém "homem livre" voltou a ser ameaçado por servidão violente e sem futuro. O panorama urbano apresentava em consequência aspecto quizilento devido a situação comercial e industrial extremar posições entre os poderosos senhores burgueses, detentores do capital, face a crescente multidão de artífices assalariados, pobres, vitimas da perturbação social da época. A luta dos preços provocou luta desapiedada nos mercados europeus, deu origem a conflitos graves entre empregados e empregadores, duros na década de oitenta, pela agressividade da gente do campo iniciada na luta politica. Em termos globais a mudança social afectou os universos envolvidos (senhorial, urbano e rural) caracterizou a violenta vivência urbana do séc. XIV com a formação de bandos rivais em luta desapiedada, empenhados em tumultos frequentes pelo domínio do poder autárquico. o cenário, preocupante pelo retrato social, foi agravado por novos factores, alguns dos quais queremos nomear:
- "Surtos da peste negra na Europa (1348 e 1360)" que reduziram muito o panorama demográfico (até 2/3 do valor anterior) da população europeia com evidentes consequências na actividade do universo laboral da época;
-"Grande Cisma do Ocidente (1378-1417)", provocado pelo papa Clemente VII ter ido para a vinha enquanto o Papa Urbano VI ficava em Roma, que evidenciava grave divisão no seio da Igreja Católica. O facto deu origem a enorme confusão nos espíritos da época que dividiu a cristandade em dois mundos antagónicos, privando a Europa da principal forca aglutinadora que ate ai a tinha orientado e consolidado;
- "Abertura de universidades laicas" que retirou exclusividade do ensino a Igreja, enfraquecendo-a ainda mais. A novidade não contribuiu para serenar e esclarecer os espíritos na vertente religiosa.

2. Consequências no reino

Portugal, pais pequeno, distante e periférico dos centros de decisão europeus, sentiu as alterações verificadas além-fronteiras, reflectidas na conduta da gente do reino. o facto ajuda a entender o desenvolvimento e consequências do Tratado de Salvaterra de Magos, a 2 de Abril de 1383, desencadeadas pela morte de D. Fernando, a 22 de Outubro de 1383, que deram origem a período de grande violência social evidente na crise de 1383-1385, que revelava linbas de fractura na coesão do reino. A revolução desencadeada pela sucessão deste rei cresceu em fases sucessivas, levando a considerar necessária e urgente a morte do conde Andeiro, que Álvaro Pais, rápida e astutamente, procurou disfarçar com oportuna intervenção popular para transformar a conspiração palaciana em insurreição publica dos mesteirais de Lisboa. O confronto alastrou-se a todo o reino opondo o "povo miúdo" a alcaides e homens bons, em que os primeiros conquistaram castelos, expulsaram notáveis mesmo quando clamavam serem pelo partido do mestre. A revolta, vinda dos centros urbanos, alastrou com rapidez ao campo onde a "raia miúda" desempenhou papel decisivo no acontecimento.
O reino profundamente dividido, pois enquanto a norte, de autoridade senhorial mais forte, aceitava sem grande oposição o tratado de Salvaterra de Magos, a sul no Alentejo e Algarve, se assumia quase na totalidade, decididamente, o partido do Mestre em oposição aquele tratado. A vitória que garantiu a independência de Portugal, duramente conquistada no campo de S. Jorge, foi de imediato reconhecida como triunfo colectivo da Nação, face a enorme ameaça exterior. Assumiu significativo reforço O ''juízo de Deus", em que ajustiça divina garantia a vitória a "quem tinha a razão por si”, legitimando com evidencia o reconhecimento do mérito do mestre de Avis e justiça da causa pela qual lutavam as forcas que o apoiavam,
D. João I de Portugal, vencedor real de Aljubarrota ao assumir e exercer logo o poder como chefe de uma Nação que se descobrira em momenta crucial e de grande perigo, conduziu ao estabelecimento de uma sociedade revigorada que permitiu a Portugal ter início de nova etapa colectiva face ao futuro.


PARA SABER MAIS
DAMIAO, Historia de Portugal, 1928;
LAPA, Quadros da Cronica de D. Jõao I, 1939;
SARANA, 1385 Inicio. Crise Geral III, 1988;