sábado, 12 de dezembro de 2015

IX - D. Nuno exemplo para o nosso tempo

I – GUERREIRO E PATRIOTA
D. Pedro I, oitavo rei afonsino, reinava em Portugal, quando na festa litúrgica de S. João Baptista, a 24 de Junho de 1360, nascia em Cernaje do Bonjardim (?), Nuno Álvares Pereira, filho natural de Frei Álvaro Gonçalves Pereira - cavaleiro hospitalário de S. João de Jerusalém – e de Dona Irina Gonçalves do Carvalhal. O prior do Crato merecia a melhor atenção de D. Afonso IV, pai de D. Pedro I, pelo valor do desempenho na batalha do Salado. Interessado em astronomia era amigo do conceituado mestre Tomás Guedelha, afamado leitor de horóscopos, a quem solicitou a predição da sorte do recém-nascido que foi resumida em três palavras, guerreiro, invencível, santidade. O facto curioso talvez possa indiciar a particular atenção paternal com a educação deste filho apesar dos muitos irmãos. Um ano após o nascimento, o menino foi legitimado por decreto real, podendo receber educação cavalheiresca própria de gente nobre. Aos treze anos foi bem aceite na corte como pajem da rainha D. Leonor, para pouco depois conquistar brilhantemente o estatuto de cavaleiro. Aos dezasseis anos, em obediência à vontade paterna casou a 15 de Agosto de 1376 com D. Leonor de Alvim, jovem viúva e poderosa fidalga de Santa Maria de Pedraça, de quem teve três filhos, dois varões que morreram cedo e uma donzela que viria a desposar D. Afonso, filho natural de D. João I.
            D. Fernando apercebendo-se dos perigos da paz assinada em Santarém, negociou com o rei vizinho o casamento de D. Beatriz, sua filha, com o herdeiro do trono de Castela. A morte inesperada da rainha levou ao casamento da infanta portuguesa com o próprio rei de Castela. O rei para salvaguardar a independência de Portugal fez assinar o tratado de Salvaterra de Magos, a 21 de Abril de 1383, que desinquietou o reino e o cindiu em dois.
O compromisso patriótico de D, Nuno foi desencadeado pela morte de D. Fernando, a 22 de Outubro de 1383, em tempo que exigia necessidade urgente da independência ser reconquistada. Considera-se hoje, talvez de modo apressado, como traidores os que alinharam por D. Beatriz, mulher do rei de Castela, mas a escolha não foi simples. Apesar de se sentir diferença entre os vizinhos ibéricos, evidente na necessidade de guardar o que era de cada um, o conceito moral de Pátria não existia formalmente e por isso não era bem claro nem estava assimilado nos espíritos da época. A dinastia para muitos garantia conveniente expressão histórica expressa na legitimidade real, julgada de acordo com o Tratado de Salvaterra de Magos, conforme às regras em vigor, do lado de D. Beatriz. Para outros, o sentido da identidade nacional ganhava força pois o reino de Portugal era um conjunto de pessoas, uma Nação, com identidade e vontade próprias. Um historiador escreveu que “o povo só se descobre como tal quando tem que vencer colectivamente uma provação que a todos importa”.
            D. Nuno nas fases da vida, como guerreiro, condestável, e depois monge carmelita, passíveis de provocar perplexidade aos menos atentos ou avisados do passado, uma vez que a fama de santidade poderá ser minorada pela gesta guerreira. Procuraremos abordar o tema na sua circunstância, isto é, com atenção ao tempo e ao sentir da época. Idealista, voluntarioso, de inteligência viva e personalidade vincada, viveu em ambiente que auxiliou a formação de vincado pendor misticista próprio da época. O modo de ser e sentir, de forte exaltação cavalheiresca e religiosa, era contido por invulgar ponderação e elevada exigência moral. A conduta resultava de prática diária que sem hesitação praticou ao longo da vida. Começou como rapaz enérgico e corajoso com invulgar talento guerreiro. Místico e generoso assumiu a responsabilidade de comandar pelo exemplo, empolgando e conduzindo os companheiros à vitória pelo entusiasmo e determinação do seu comportamento. A idade trouxe ponderação e clareza de propósitos, consolidadas pela prática da disciplina e inteligência das decisões, a nortear as acções que realizou. Reuniu com acerto, escassos meios e vontades disponíveis, por vezes contra a opinião geral. Foi o líder certo nos momentos incertos.
A crise de 1383 – 1385 iniciou um longo período de confrontos entre os vizinhos ibéricos, saindo Portugal vencedor das batalhas de Atoleiros, Trancoso, Real (de Aljubarrota) e Valverde que permitiu a consolidação da independência portuguesa com a assinatura de paz com Castela em 1411. Em perspectiva invulgar, por explicar, diremos que D. Nuno não executou cruentas acções guerreiras nem comandou força de “mal querer”, pois actuou em guerra de fidelidade. Não guerreou Castela em particular mas a favor da unidade da Igreja, uma vez que Portugal optara pela obediência ao para de Roma, Urbano VI, face ao antipapa de Avinhão, Clemente VII. A entrega do reino à coroa de Castela poria Portugal em posição cismática no Cisma do Ocidente que durou 39 anos, de 1378 a 1417. A Santa Sé ao verificar a seriedade do propósito de Portugal aderiu à revolução de 1383-1385 e concedeu direito ao uso do título de Nação Fidelíssima.
O resultado das campanhas que D. Nuno travou foi fruto de disciplina de outra natureza, que exigia aos companheiros de armas virtudes e saberes próprios de guerreiros, mas sobretudo a afirmação evidente de virtudes morais para “mais que guerreiros fossem homens e cristãos”. A guerra devia ser “querela justa em defender a nossa terra e os nossos bens de quem os queria tomar pela força, contra Deus e contra o direito”. O confronto guerreiro por natureza é um acto em que a paixão tem primazia sobre a razão, sendo muito difícil manter na refrega “discernimento e são critério”, a evitar excessos que causem sofrimento e males desnecessários. A atitude, invulgar na conduta guerreira, de violência desnecessária, é pautada pela “razão da força”, com registo em fontes coevas (da época), donde respigaremos factos relatados em saboroso linguajar medieval:
- em relação ao adversário “cuidava de prisioneiros e feridos e não permitia que a sua gente danificasse aldeias ou searas, protegendo mulheres, crianças e pobres”;
- certa vez “ durante quatro meses, por ocasião de grande carestia, alimentou à sua custa 400 castelhanos, distribuindo 6.400 alqueires de trigo”;
- outra vez “mandou soltar uns noivos que os companheiros haviam aprisionado e fez a sua festa e oficio, cantando os seus nela. Ele mesmo tomou parte na celebração da boda, dizendo que assim cumpriu de se fazer, pois o casamento era um dos sacramentos da Santa Igreja”;
- a fama de D. Nuno, em particular o comportamento, mesmo junto dos castelhanos, deu origem ao episódio que gostosamente partilhamos. Certo dia ao amanhecer, junto de Cáceres, uma dezena de escudeiros o procurou sem sinal de resguardo ou segurança. Disse-lhes D. Nuno “fostes ousados em virdes assim sem primeiro haverdes seguro”, ao que responderam “Senhor, em atrevimento da vossa grã bondade e muitas virtudes que Deus em vós pôs, fomos ousados em vir ante vós” . E o que desejavam dele? “ nada, voltaram a responder, nada que não outra coisa senão somente vê-lo, como já o havemos visto”.  Um historiador famoso registou “ se D. Nuno não tivesse existido, animado pela fé e heroicidade da sua atitude, a Nação portuguesa poderia ter desaparecido em finais do século XIV”.
O sentir nacional, na altura mal definido, ancorado no amor à terra de Portugal deu origem à necessidade de a defender “de todo o dano”. A consciência viva da nacionalidade para vingar necessitava dum chefe para disciplinar o esforço de todos em torno de uma causa comum configurada neste caso no líder provincial coevo D. Nuno Álvares Pereira. Oliveira Martins considerou esta personagem “ a mais nobre, a mais bela figura que a idade média nos deixou” e que Eça de Queiroz definiu “ de incomparável grandeza”.
O entendimento da aparente relutância de D. Nuno em contrair matrimónio obriga a considerar a época como tempo de cavalaria, identificada no Concílio de Clermont que determinava a toda a pessoa de “nascimento” o dever de aos 12 anos jurar solenemente perante um bispo “defender até ao fim os oprimidos, viúvas, órfãos e que as mulheres de nobre nascimento deviam merecer cuidado especial”. O cavaleiro no início preocupava-se quase só com “as manhas” da guerra, enriquecido depois com a defesa do evangelho e dos fracos, dando origem a nova e depurada concepção de cavaleiro que orientava a conduta pelas virtudes da cavalaria, consideradas prioritárias: primária (de natureza guerreira); secundária (religiosa) e terciária (social). A cavalaria insistia na prática da verdade, confiança, respeito pela palavra dada e fidelidade aos compromissos assumidos, cuja omissão considerava indesculpável. Autêntica paixão para muitos jovens, era fortalecida com famosas novelas de cavalaria que referiam figuras, reais ou fictícias, de ilustres cavaleiros que montados em corcéis velozes, iam à procura de aventuras edificantes. A pureza aproximou DS. Nuno de Galaaz e tornou-o capaz de guardar em todos os momentos a solidez dos seus sentimentos na perene juventude do coração, expressa em desinteressada e generosa frescura que sempre o distinguiram.” A sua fé em Deus era chama em que ardia a dedicação patriótica e energia de guerreiro. A religião era a raiz, virtude, coragem, civismo e percurso da sua vida, iniciada com a revolução mística da cavalaria” (Oliveira Martins). Os dotes guerreiros de D. Nuno eram acompanhados por espiritualidade sincera, profunda, no Amor pela eucaristia e Virgem Maria, trave mestra da sua vida interior. Assíduo à oração mariana, jejuava em honra da Virgem Maria às quartas, sextas, sábados, vigílias das suas festas e assistia diariamente a duas missas e recebia a eucaristia nas maiores solenidades.
O estandarte eleito como insígnia pessoal, que teria sido bordado por sua mãe, tinha imagens do Crucificado, Maria Santíssima com o Deus Menino, dos patronos S. Tiago e S. Jorge. Após um confronto enquanto os seus festejavam ruidosamente a vitória das armas, ia em peregrinação aos santuários mais próximos, como em Atoleiros onde no dia seguinte foi, descalço, render louvores ao Altíssimo em Santa Maria de Assumar (próximo de Monforte), assim como antes e depois da batalha Real foi encomendar e agradecer a Santa Maria de Seiça no condado de Ourém. Após Valverde onde rezou, lutou e venceu mandou edificar o mosteiro de Nossa Senhora do Vencimento no Carmo, em Lisboa.
II - RELIGIOSO
D, Nuno após ter participado na tomada de Ceuta, com 63 anos, professou a 15 de Agosto de 1423. Ao ser admitido no convento do Carmo, repartiu o que era seu, perdoou dívidas e ficou sem nada. Trocou a seda pelo ”burel” (tecido grosseiro de lã) e recolheu ao isolamento duma cela vazia. Praticou vida simples e austera ao serviço dos mais necessitados e esmolou sete anos pelas ruas da capital do reino. Morreu no domingo de Páscoa perante a família real em pranto ao som dos sinos que tocavam finados, acorrendo enorme multidão chorosa que bradava ter morrido o Santo condestável.
A canonização promovida sete anos após a morte, por D. Duarte, foi prosseguida pela ordem do Carmo face a numerosos obstáculos. O padre Anastácio Ronci, postulador geral dos carmelitas, introduziu o processo “de tempos imemoriais” para o culto de D. Nuno, concluído em 23 de Dezembro de 1918, com o decreto “Clementíssimos Deos” do papa Bento XV, que o escolheu como exemplo para os militares que combatiam na I guerra mundial. As suas relíquias foram trasladadas numerosas vezes da campa original para o templo do Carma. O postulador geral da ordem, padre Filipe Amenos e Bonet conseguiu a reabertura da causa, graças ao milagre ocorrido em Ourém em 2.000. O cardeal patriarca de Lisboa, a 23 de Janeiro de 2003, presidiu na igreja do Carmo à cerimónia de reabertura solene do processo de canonização do Beato Nuno e a 2 de Abril desse ano, no templo do Santo Condestável, em Lisboa, ao encerramento e envio do processo de canonização à Santa Sé em Roma. Concluídas as investigações, durante o Consistório de 21 de Fevereiro de 2009 o papa Bento XVI determinou que o beato Nuno fosse inscrito no Álbum dos Santos, a 26 de Abril do mesmo ano. A “santificação” teve lugar na praça de S. Pedro numa cerimónia de grande solenidade e alegria. A memória, extensa, da sua exemplar conduta, evocada em inúmeros eventos, será oportunamente recordada noutro texto.
A terminar recordamos o oportuno texto de Eça de Queiroz (1871):
“ O país perdeu inteligência e consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciência em debandada e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos”, a que acrescentamos, o Homem parece perdido de raízes, passado e sentimentos. Face a preocupante e triste panorama seria oportuno aproveitar o exemplo partilhado para reflectir, rever a conduta pessoal, ética e social, conforme recorda o verso de Fernando Pessoa
“ Esperança consumada São Portugal em ser Ergue a luz da tua espada para a estrada se ver”.

 PARA SABER MAIS
- ANÓNIMO, Autor, séc. XIV, Crónica do condestável de Portugal, Ed. Sá da Costa, 1937;
- COUTINHO, Bernardo Xavier,  Iconografia e bibliografia condestabrianas, I A C, 1971;
- MILITAR, Revista, O sexto centenário da batalha de Atoleiros, nº 5 (pág.263 a 298), 1984;
-PIMENTA, Belisário, Nun´ Álvares - chefe militar, Biblioteca Estudos Livres- V, Ed. Academia Coimbra, 1932;