domingo, 27 de dezembro de 2015

VII - Ermida de Nossa Senhora da Vitória (S. Jorge)

Nuno Alvares Pereira em agradecimento a Virgem Maria fez erguer uma ermida no local onde içara o estandarte na batalha Real, a 14 de Agosto de 1385, que o povo deu o nome de S. Jorge por figurar na bandeira. O templo, de uma nave, restaurado conservou vestígios góticos primitivos como o torreão amuralhado da capela-mor e gárgulas. A ermida mede cerca de 19x13m e a capela-mor tem "abside" (parede semicircular ou poligonal por detrás do altar). o cruzeiro a Sul, próximo, lembra a luta entre Martim de Macedo da Ala dos Namorados, a salvar o seu rei de Sandoval, nobre castelhano.

A imagem de Nossa Senhora da Vitoria a encimar o altar-mor, a quem o templo foi consagrado, parece velar pela sua utilização. O padre Louro no "Couceiro ou memorias do bispado de Leiria" refere que a imagem teria acompanhado D. Nuno nas campanhas guerreiras o templo apresenta na nave (espaço destinado a fieis) dois altares. Á esquerda, lado do evangelho, está uma escultura em pedra que representa S. Jorge, o Bem, a ferir com lança o dragão infernal, o Mal, derrubado a seus pés. Á direita, lado da epístola, apresenta o Condestável a empunhar a sua bandeira, que o recorda como guerreiro e monge, formas de servir um ideal elevado.
Teria existido em seu tempo junto á parede esquerda, a meio da nave, um púlpito de madeira apoiado no chão que desapareceu. A abóboda da capela-real apresenta no fecho das colunas "artesoadas" (trabalhadas por artesãos) o pelicano de D. Joao II, possível indício de restauro da época.
Sublinha-se que a ave, ligada a Caldas da Rainha, simboliza a fraternidade. O templo apresenta na frontaria uma pedra com Inscrição em caracteres góticos maiusculos a confirmar ter estado içada no local a bandeira de D. Nuno na batalha Real. Refere o ano 1431, era hispânica, em vigor em Portugal ate 1422, quando passou para a de Cristo, que permite concluir ter sido inaugurado em 1393. Foi redigida possivelmente conforme indicações de D. Nuno e reza assim:
ERA: DE MIL: E QUATRO CENT
ETRINTA: EHUU: ANOS: NUNAL
VARES: P(ER)EIRA: CONDE: ESTAB'
MANDOU: FAZER: ESTA: CAP
EELA: A ONRA:DA VIRGE: MARIA: POR
QUE: EN O: DIA: QUE: SE FEZ: AQI: A BA
TALHA QUE:ELREY: DE PORTUGAL: OUVE: CO: ELREY
DE: CASTELA: ESTEVE: EN ESTELOGAR: A BANDEI
RA: DO: DITOCONDE: ESTABRE:

A pedra apresenta no bordo inferior, um corte em V invertido que interrompe a ultima linha da Inscrição. Julga-se que a primitiva porta principal do templo teria sido ogival com a lápida colocada sobre o fecho superior conforme parece sugerir a marca. Em época posterior, numa reconstrução da fachada terá sido mudada para a parede lateral esquerda, onde se encontra. A fachada fronteira apresenta num nicho á esquerda, uma "quarta" (pequena bilha) sempre cheia de água para matar a sede a caminhantes, conforme tradição do século XV e compromisso de D. Nuno.
Um cruzeiro de procissão a sul, recorda o duro confronto entre D. João I e o experimentado cavaleiro castelhano D. Álvaro de Sandoval onde se distinguiu o cavaleiro português da Ala dos Namorados, D. Martim Gonçalo da Maia pelo socorro eficiente e oportuno ao rei de Portugal.
Fernão Lopes partilhou com pormenor o feito no relato da batalha Real. A importância do templo ultrapassa o valor patrimonial, garante a memória do confronto, permite conhecer a localização exacta e conduta das forcas antagónicas ao considerar o local onde foi erguido. O valor defensivo do terreno conjugado com o alcance das armas mais letais (arco e besta) e manobras tácticas em uso na época, possibilitaram o conhecimento do local onde a forca portuguesa teria esperado e vencido o invasor.
O rei de Castela, face á dificuldade de abordar a forca oponente evitou o confronto e contornou a posição portuguesa pelo lado do mar na procura de terreno favorável á sua vontade. Em Chão da Feira, que permitia ampla manobra de rotação, preparou-se para atacar pelo sul a forca portuguesa.
D. Nuno atento, antecipou-se e mudou ordeiramente a hoste para outra posição, dois quilómetros a sul, onde se preparou para afrontar o invasor vindo do Sul. Reforçou os acidentes naturais, ribeiras da Mata (Oeste) e Madeiros (Leste), a garantir o melhor desempenho, com:
- "abatizes" (árvores derrubadas) com a copa virada para o lado de onde viria o atacante, para lhe dificultar a visão e perturbar o movimento;
- "covas de lobo" (escavações mais ou menos compridas com largura e fundura aproximadas de setenta centímetros) disfarçadas com a rama de arbustos para servirem de armadilha e provocarem a queda de surpresa das montadas do invasor;
- “fossos" (valas com profundidade aproximada dum homem em pé) que se destinavam-se a deter os cavalos e canalizar o movimento.
As escavações terão sido executadas por cerca de 1000 “servos da gleba” mandados por Frei João abade do feudo de Alcobaça.
D. Nuno entretanto instalou o comando, sinalizado com a bandeira, em pequena elevação que facilitava a defesa por permitir a visão sobre o campo de batalha, no local onde foi edificada a ermida.
A equipa militar orientada pelo coronel arqueólogo Afonso do Paço, 1959, pôs a descoberto a Leste e Norte da ermida de S. Jorge, “o grande fosso”, com a direcção sul- norte, que tinha cerca de 190 m de comprido, 0,8 m de largura e profundidade. A Sul, foi descoberta uma zona fortificada de 150 por 100m, com 4 fossos e 40 filas de covas de lobo de 60 a 80 m de comprimento. As covas de lobo (830), dispostas em espinha relativamente ao fosso Norte, possível flanco Leste do dispositivo português virado a sul.
A ermida foi referida inúmeras vezes em variados documentos por:
- Fernão Lopes, na crónica de D. João I;
- Frei Agostinho de Santa Maria no Santuário Mariano, 1711, relatou o edificado, funções do ermitão ("...ter sempre agoa para as passageiros..."), entre outros cuidados;
- O Couceiro (publicação impressa em Braga em 1868) referiu a paga ao ermitão, actividades com dependências religiosas e compromissos dos duques de Bragança;
O templo do campo da batalha Real, marco da independência nacional, tem participado em cerimónias de grande sentido colectivo, que de modo breve iremos referir como os cortejos fúnebres de D. Joao I, D. Duarte, D. Afonso V, D. Afonso, filho de D. João II e D. João II.
A participação da ermida de S. Jorge, em nosso entender, não se limitou a participação em acontecimentos relatados por cronistas, apesar de não termos conhecimento de eventos realizados nos cerca de 400 anos que se seguiram aos factos relatados, mas estamos certos que a importância se manteve devido ao fundador, considerado exemplar guerreiro e Santo.
Ate meados do século XX realizaram-se cerimonias anuais evocativas da batalha Real e de D. Nuno e posteriormente o Campo Militar de S. Jorge sob a tutela do Exercito tem comemorado a efeméride com a digna simplicidade própria das cerimónias militares.

PARA SABER MAIS
PAÇO, Afonso do, Capela de S. Jorge de Aljubarrota, Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 1945;
Escavações no campo de batalha de Aljubarrota. Estado actual do problema, edições Brotéria, Lisboa, 1960;
RESENDE, Garcia de, Cronica de D. João II e miscelânea, edição INCM. 1973;

SAMPAYO, Christoval Ferreira y, Vida e hechos del Principe Perfecto, Don Juan Rey de Portugal segundo deste nombre, Madrid, 1926.