domingo, 27 de dezembro de 2015

XI - Castelo medieval

I - FUNÇÃO, CONSTITUIÇÃO E DESIGNAÇÃO DE ELEMENTOS ARQUITECTÓNICOS

O castelo altaneiro é refúgio dum senhor da guerra que aproveitava para dominar o espaço em redor. Sobreviveu a evoluir na adaptação a novas armas em função ao terreno escolhido para edificação. É construção fortificada típica medieval, composta por variados edifícios com funções próprias, cercados por muralha reforçada com torreões espaçados, também ameados, a criar espaços fechados ao exterior. Tem características próprias da região onde foi implantado como o castelo ibérico cristão de três pátios:
- Baixo, albacar, refúgio de moradores próximos fugidos da guerra com haveres e gados (vacum) onde em tempo de paz se treinava o uso de diversas armas;
- Intermédio, da alcaidaria, onde o alcaide reunia e dava orientação à sua gente para assegurar a defesa possível;
- Superior, posto de comando junto da torre de menagem, último reduto da defesa.
Construído em lugar alto, ajudava os moradores a lançar projécteis do alto das muralhas e dificultava a acção dos atacantes cansados pela subida ingreme para se aproximarem do castelo.
O rei na Península Ibérica, utilizava o castelo para garantir a organização, administração e defesa deste centro dinâmico do desenvolvimento de lugares edificados que facilitava o crescimento económico, administrativo e social do reino. As altas muralhas reforçadas com torres variadas, afastadas entre si, coroadas de ameias, eram o principal meio de defesa que permitia observar de longe o espaço em redor. Robustas, espessas, de dois metros e meio, em ”argamassa da época” (cal misturada com areia e água), eram defendidas na parte mais exposta pela “cava” ou fosso para manter o atacante à distância e impedir a construção de túneis. A vigilância e o controlo do espaço exterior eram obtidos do caminho protegido no alto das muralhas, ajudados por “seteiras” (fendas verticais para ver à distância e horizontais a utilizar em direcção), por vezes cruzadas entre si. Alargadas para dentro facilitavam a utilização de arcos e bestas que disparavam setas e virotes. A entrada principal, alvo prioritário do invasor, merecia atenção particular do defensor que a reforçou com a “ponte levadiça” (plataforma de madeira em ponte para atravessar o fosso) levantada no ataque e robusta grade vertical de ferro e madeira dura (carvalho) que terminava em ponta na extremidade inferior, manobradas do interior por dispositivo mecânico. A muralha protegida por “barbacã” (muro exterior, mais baixo, próximo), primeira defesa, a formar outro anel (completo, parcial ou limitado à porta que defendia designada por “barbacã de porta”).       
A “torre de menagem”, símbolo guerreiro, emblema da autoridade feudal e instalação pessoal do “alcaide” (governador, senhor e comandante da guarnição do castelo) e família, servia como posto de comando. Alta com cerca de dez a vinte metros permitia dirigir a defesa e atingir com projécteis o espaço envolvido pelas muralhas. Auto-suficiente, preparada para resistir ao assaltante até chegada de reforço, tinha uma entrada, elevada, a vários metros do solo, que exigia escada de madeira, recolhida em caso de ameaça. Dispunha de vários pisos, com serventias diferentes:
- piso térreo, sem  aberturas servia como prisão, armazém, cisterna ou paiol;
- 1º piso, com porta de entrada e seteiras servia de sala de audiência;
- pisos superiores, arejados e seguros eram alojamento para o alcaide e família ou armazém de  equipamento mais importante à defesa.
O entendimento da complexidade da edificação convida a explicar alguns elementos arquitectónico, referidos com brevidade:
-  “torre albarrã”, distante, ligada à muralha por pequena ponte de pedra, barrada  para evitar a conquista do castelo, utilizada  quando o atacante se preparava para escalar e iniciar o ataque;
- couraça( torre redonda  de origem árabe) em local necessário á protecção de algo importante, vulnerável e próximo (poço).
- cobelo(torre redonda) que facilitava a observação, o uso das armas em várias direcções e o ricochete dos projécteis do inimigo;
-pano de muralha,  muralha compreendida entre dois torreões;
- porta da traição, pequena porta oculta ou dissimulada  unto ao solo ou pouco acima, utilizada pelo defensor para fazer “sortidas” (ataques de surpresa) ao atacante ou fuga  quando verificavam a impossibilidade de defesa.
A importância do castelo resulta da natureza da construção e localização valorada pela distância de outros mais próximos. A observação atenta da fronteira de Portugal permite verificar que na época era defendido por castelos dispostos em “linhas de detenção” para deter o invasor, que as cidades importantes, merecedoras de mais atenção, estavam rodeadas por castelos dispostos em “defesas de profundidade”, uns atrás dos outros, para orientar, dificultar ou impedir o acesso do atacante.

II- EVOLUÇÃO DO CASTELO

A silhueta altaneira do castelo é indício e fonte de informação militar, politica, social económica e cultural, confirmado por Mário Barroca, historiador, ao referir que ” ajuda a entender o território pátrio”. A evolução dos castelos devida pela necessidade de controlar o efeito de novas armas e permitir o cumprimento da missão para que tinham sido construídos. A alteração, lenta no tempo, será referida com brevidade nas características mais salientes de cada fase;
Castelo românico, do séc. XII, para resistir a cercos demorados. A  torre de menagem era quadrada, central, e a muralha  alta, ameada, com adarve” (caminho da ronda), reforçada  em cada canto com torreão quadrangular, que apresentava seteiras a alturas diferentes.
 Castelo gótico, do reinado de D. Diniz, apresentava as características:
- torre de menagem, poligonal,  junto da muralha a permitir  participação mais eficaz na defesa, mais grossa, poligonal, para  melhor desempenho;
- as outras torres “adoçadas”(encostadas à muralha) são mais numerosas para dificultar a acção atacante como  escalada ou abertura de túneis;
“balcão”(pequeno varandim com ameias) apoiado em ornatos salientes de pedra com “matacães”(aberturas circulares no chão usadas  para lançar projécteis sobre o atacante ( base da muralha e  entradas);
- “barbacãs”, parciais ou extensas protegiam as muralhas como obstáculos que  canalizavam, atrasavam ou impediam a aproximação dos atacantes.
-“ fortificação abaluartada”,  surgiu em finais do séc. XIV  nos reinados de D. Fernando e D. João I, com a utilização de armas “pirobalísticas” (de pólvora), que obrigou a grandes alterações nos castelos edificados ou à construção de outros preparados  para utilizar as novas armas e suportarem com êxito o efeito dos projécteis. A alteração consistiu na redução em altura, paredes exteriores mais grossas e inclinadas na vertical e horizontal para serem alvo menor, suportarem o impacto e facilitarem o ricochete dos projécteis. As torres foram esquecidas para sempre e procurou-se utilizar as armas de pólvora em favor do defensor pela adaptação das fortificações de modo a serem utilizadas com êxito.

III- O CASTELO DE PORTO DE MÓS

O castelo senhorial de Porto de Mós, localizado próximo de S. Jorge, campo onde se travou a batalha Real, é referência oportuna. Encavalitado no alto de outeiro de 148 m de altura, sobranceiro ao rio Lena, onde foram encontrados numerosos achados e vestígios de épocas remotas, permitem concluir que já era importante à chegada de romanos que o teriam ocupado, transformado em base militar e centro político de alguma importância.
D. Afonso Henriques garantiu a segurança da corte em Coimbra, com a conquista de Leiria e dedicou particular atenção aos castelos de Montemor e Soure, profunda penetração em terra moura. O campo cristão em faixa a Sul do rio Mondego, de difícil controlo, importante como núcleo de defesa,  com os castelos de Leiria, Ourém e Porto de Mós.  Fuas Roupinho, alcaide do castelo de Porto de Mós, teve acção importante, mas após a sua morte os moiros conquistaram e destruíram o castelo.
D. Sancho I em 1200, mandou reparar e ampliar o castelo e construir cerca amuralhada de protecção em volta do povoado.
D. João I e D. Nuno na crise de 1383-1385 prepararam a hoste de Portugal para a batalha Real. Utilizaram Porto de Mós como “ basse de ataque” donde se fez o reconhecimento do terreno, foi organizada e recebeu as últimas ordens. O castelo, sentinela vigilante, sobressia no casario que a Sul, a seus pés, parecia prestar vassalagem. Pentagonal tem em cada canto torre encimada por pináculo verde e apresenta ampla varanda, debruçada sobre a porta principal que permite repousar a vista no verde mimoso do vale, limitado por montes propícios a animadas ”montarias” (caçadas).  
O terramoto de 1755 provocou enorme estrago que muitos anos depois se procurou reparar. A superfície exterior com as torres e muralhas coroadas de cachorradas” (pedras salientes) reforçada com paredes salpicadas de janelas e portas góticas, algumas com colunas de “capitel” (parte superior da coluna) finamente trabalhados provocam agradável efeito decorativo. As seteiras e janelões, como olhos vigilantes, parecem estar atentas aos locais com mais possibilidades de terem sido utilizadas nos ataques inimigos A natureza ingreme da elevação aumenta o valor defensivo do castelo, que dispensa a protecção do fosso e ponte levadiça. Os atacantes após difícil l subida tinham de enfrentar a pesada porta de ferrolho reforçada com forte grade enquanto suportavam densa chuva de projécteis (pedras, virotes, setas, líquidos a ferver, etc.) do cimo das muralhas com invulgares ameias horizontais que permitiam o lançamento em segurança.

PARA SABER MAIS
- BARROCA, Mário, Jorge, Do castelo da reconquista ao castelo românico, Direcção do Serviço Histórico - Militar, 1991;
- MONTEIRO, João, Gouveia, Os castelos portugueses nos finais da idade Média, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Ed. Colibri;
- NUNES, António, Pires, Dicionário temático de arquitectura militar e arte de fortifica. ,Direcção do Serviço histórico. militar, 1991;
- RAMOS, Luciano, Justo, Castelo de Porto de Mós, Câmara Municipal de Porto de Mós. 1971.