domingo, 27 de dezembro de 2015

XIV - Comércio Medieval

I - ORIGEM
            O homem ao verificar que sozinho seria incapaz de sobreviver, juntou-se a outros seres humanos, para em conjunto garantir alimento, agasalho, segurança e procriação. A decisão permitiu famílias ou clãs (com antepassados comuns) que se fixaram no terreno para erguer habitação, aldeias, burgos (cidades) e sobreviver com a troca de alimentos entre si. Os burgos na Europa romana, ligados por vias muito utilizadas, eram acrescentadas por nova rede de caminhos ligados por pontes onde o passante era obrigado a pagar portagem mesmo sendo feirante. Os reis e senhores da terra também mandaram melhorar as vias mais antigas, fazer novas, para controlar ou defender o reino em colaboração com a igreja a facilitar o acesso a peregrinos aos santuários ou locais de culto. O trânsito comercial terrestre contudo continuava difícil e pouco praticado, devido à insegurança, custo elevado das portagens e frequentes altos. A gente do campo cultivava, próximo do local onde morava, a maioria dos alimentos necessários à alimentação, que por se estragarem com facilidade eram em pouca quantidade e comerciados com os vizinhos mais próximos. Os cereais, base da alimentação da época, eram acompanhados por vezes com carne das aves e peixe apanhado nas águas mais próximas. O sal foi ganhando importância por conservar a carne e o peixe, só ultrapassado por especiarias vindas do distante Oriente, que dissimulavam o mau sabor dos alimentos quase sempre pouco frescos.

A Península ibérica e a região mediterrânea, em volta do Mediterrâneo, dispunham de alimentos próprios como azeitona, azeite, mel, fruta (laranjas, tangerinas, limões), passas, nozes, amêndoas, pinhões, vinho etc. que pela qualidade e sabor eram muito apreciados e gulosamente consumidos na Europa. Os vendedores ambulantes levavam a mercadoria de aldeia em aldeia, em carroções de quatro rodas puxadas por animais (asnos, mulas, cavalos e raramente bois por serem caros e de andar lento. Os feirantes passavam muito tempo em transito, assim procuravam meios práticos para garantir segurança, transporte e facilidade de venda em locais próprios, conforme desenho da época que mostra a cobertura das carroças como protecção do estado do tempo. O transporte aquático (fluvial ou marítimo), nem sempre possível, cómodo, rápido e barato por os barcos levarem mais carga o que explica a localização e êxito de muitas cidades nas margens ribeirinhas. A actividade comercial originou o nascer da revolução comercial e deu origem ao sistema bancário. As feiras e mercados, diferentes pelo tamanho, natureza e periodicidade serão referidas de modo breve:
- mercado, no princípio da Idade Média (inicio do séc. X) era uma reunião de mercadores  locais que vendiam alimentos a residentes e de lugarejos  próximos. Os servos da gleba (camponeses) vendiam o produto próprio da estação, aves de capoeira, ovos, cabritos coelhos, etc. Podia ser diário, semanal ou quinzenal. O comércio limitava-se à venda a retalho, tinha importância local, pois movimentava-se por norma pouco dinheiro;
- feira, resultou da acção conjugada de comerciantes que formavam um centro comercial de troca por grosso, com interesses de elevado número de feirantes que transaccionavam produtos de regiões distantes, além fronteiras. Surgiu no séc. XIII a comerciar em larga escala, de preferência Maio e Outubro, produtos de consumo pouco habitual (especiarias, metais e tecidos) em actividade que podia prolongar-se por semanas. A natureza, tamanho e complexidade eram obstáculo à preparação e realização anual, no mesmo local, vezes seguidas. Despertava o interesse de grandes comerciantes, parte importante do negócio (produção, distribuição e consumo) em que o valor económico envolvido podia afectar a prosperidade de uma grande região ou mesmo um país inteiro. Apareceu na Europa Ocidental medieval saída da indolência económica em que estivera mergulhada após a invasão islamita interromper a relação comercial com o Oriente. O renascimento da actividade foi ajudado por cerimónias de culto e festas religiosas, poi a igreja desempenhou papel decisivo na criação da “paz temporária” em vigor no período das feiras, que permitiu desenvolver a actividade comercial. As romarias, peregrinações e outras actividades atraíam romeiros de lugares distantes e como cada um era quase mercador as reuniões eram também lugares de troca de produtos. Muitas feiras nasceram junto ao templo dedicado a santo venerado. Em Portugal a maior parte das feiras estava relacionada com festas religiosas, com a Igreja a impedir feira ou mercado no domingo, dia dedicado ao serviço de Deus e descanso semanal.

II – IMPORTÂNCIA
            A actividade feirante, importante na organização medieval, época que impedia a circulação de pessoas e mercadorias, era dificultada por falta de caminhos, insegurança, impostos de circulação: peagem (pessoas) e portagem (mercadorias). O mercado e feira, significativas manifestações económicas e sociais, derivaram da necessidade da troca de produtos (alimentares e outros) que obrigavam à realização periódica em lugares que facilitavam o negócio.
Portugal, a partir do séc. XTV (início da expansão marítima conduzida pela dinastia de Avis) funcionou mais como zona de passagem do comércio marítimo que como região de produção que criava e preparava os produtos. A segurança e privilégios necessários estenderam-se pelo reino a permitir significativo e permanente aumento comercial. O local da feira por determinação real era abrangido pela “paz da feira” que proibia actos hostis (vinganças ou lutas) e punia com severidade quem a não respeitava. A autorização, representada por símbolo (cruz, pano ou chapéu) era presa no cimo dum pau comprido içado no início e arriado no final da actividade. Os feirantes começaram com privilégios (não serem perseguidos ou presos por delito cometido na paz da feira, etc.). Os reis para facilitar a esta actividade criaram a “feira franqueada” (dispensava o pagamento de imposto para comerciar) conforme carta de D. João I (1413) para o mosteiro da Batalha. O local escolhido, defendido por muros (castelo ou cerca) em praça protegida ou em “chão da povoação”. A casa real portuguesa atenta conforme atestam os diplomas dos reinados de D. Afonso Henriques a D. Fernando “garantiam protecção e segurança a feirantes e mercadorias, proibição de serem perseguidos e apreensão dos seus bens, durante a feira como uns dias antes do seu princípio e alguns depois de ela terminar”. D. João I em carta de feira de Tomar (1420) aumentou os privilégios, garantiu a feirantes que não podiam ser presos nem acusados doutros delitos que não fossem praticados na feira e concedeu autorização para porte de arma e utilização de qualquer montada. A feira, centro de troca de mercadoria, foi acontecimento jurídico e comercial saliente, que permitiu o desenvolvimento económico, em contribuição para o sustento e fortalecimento da autoridade real e concelhia. A “carta de feira” não apareceu apenas por iniciativa de rei mas intervenção do Conselho que impulsionava a decisão real. O interesse comum era aumentar a população local e aumento de receitas para estimular o comércio local. Cumpriu valiosa acção social e cultural pelo acesso a noticias e conhecimento oriundo de áreas distantes (colheitas, catástrofes, saberes, etc.) de tudo que é do interesse do povo em geral. Aproximou os homens entre si, motivou solidariedades, criou interesses idênticos, ajudou a criar a cultura idêntica. Melhorou a comunicação, aumentou os agregados humanos e a construção de inúmeros chafarizes. As pedras do mosteiro de Nossa senhora da vitória, na Batalha, “amarelecidas pelo tempo, ganham maior significado ao lembrar que a construção da capela do infante D. Henrique foi possível com o dinheiro feirante da feira de viseu”.(finais do séc. XIV).

III – FEIRAS   MEDIEVAIS DO DISTRITO DE LEIRIA
            A referência breve ao comércio medieval e importância na actividade dos portugLiueses, leva à evocação da actividade feirante:
Localidade
Ano
Rei
Tipo de feira
Leiria
1284-1285
D. Dinis

Ourem
1367
D. Dinis

Batalha
1413
D. Joao I
Franqueada
Pombal
1442
D. Afonso V
Franqueada

PARA SABER MAIS
- RAU, Virginia, Feiras medievais portuguesas , Subsidios para o seu estudo.  Editorial. Presença.1982;

-SERRÃO, Joel, O carácter social da revolução de 1383,Ed.Horizonte, 6ª Ed. Lisboa,1985.