domingo, 27 de dezembro de 2015

XII - Armamento Medieval

I - GENERALIDADES

O Homem para sobreviver fez e utilizou armas (defesa e ataque) ao adversário. Tiveram desenvolvimento constante, fruto do desafio atento entre a defesa e o ataque, em que cada contendor procura vencer o antagonista.
"Fernão Lopes", cronista português, referiu na Crónica de D. João I, as armas utilizadas na Batalha Real (de Aljubarrota) travada no campo de S. Jorge, em 14 de Agosto de 1385.
Vamos tentar agrupar para apresentar com simplicidade algumas das armas:
- "individuais", utilizadas por um individuo;
- "colectivas", necessitam mais de uma pessoa.
- "defensivas" defendem o nosso corpo dos golpes recebidos;
- "ofensivas", para ofender ou atacar o corpo do adversário.

II - ARMAS INDIVIDUAIS DEFENSIVAS

Protecções exteriores
- "pavês": escudo canelado de grande dimensão (cerca de cento e dez cm).
Os besteiros utilizavam-no na vertical, preso ao chão por estaca, para permitir armar as bestas em segurança e orientar a pontaria por orifícios;
- "escudo": prancha de madeira reforçada com material apropriado (cabedal endurecido).Os cavaleiros ao proteger as pernas com cota de malha, joelheiras e caneleiras (finais do séc. XII) começaram a utilizar escudo menor, redondo, plano, individualizado com o "brasão" (símbolo) do utilizador. Passou depois a triangular com o bordo superior recto e o inferior redondo ou em ponta. Estava seguro e era manobrado por correias presas à sua face posterior.

Protecções do corpo
- "loriga": arma defensiva (séc. XII e XIII) que protegia o tronco, cujo nome derivava de "loto" (correia de cabedal) usada para reforçar a veste. Era uma protecção de tecido tratado ou reforçado com cabedal, utilizada por peões e cavaleiros pouco abastados, como "cota de malha" ou "camisa de ermes"
- "cota de malha": protegia o corpo (simples ou dupla) com elos metálicos, ligados entre si, em que cada um ficava entrelaçado com quatro elos vizinhos.
O fabrico melhorou (séc. XIII) mas continuou frágil, a garantir pouca protecção, que apresentava várias inconveniências pois:
- a execução era morosa e cara;
- era pesada (mais de quinze quilos) e quente (acima de 37°);.
- ao receber uma pancada forte os elos partiam, enterravam-se na carne e davam origem a infecções muito graves (septicémia);
Para evitar ou reduzir as desvantagens usava-se sobre a cota de malha um "Ioude/"(túnica larga de mangas curtas) de tecido rijo e almofadado com feltro ou cabedal na frente e costas, bordadas com o brasão do utilizador.
(O loudel de D. João I está exposto no museu Alberto Sampaio em Guimarães)

- "armadura" ou "emês": conjunto de peças metálicas anatómicas, usado pelos homens de armas e cavaleiros para se defenderem. Eram chapas de metal,
resistentes, bem polidas, que facilitavam o deslizar das armas contrárias, ligadas ou articuladas entre si, por atacadores de cabedal ou dobradiças.
Completa tinha cerca de duzentas e cinquenta peças com o peso aproximado de quarenta e oito quilos (finais do séc. XIV), cuja segurança era normalmente
reforçada por uma cota de malha usada por baixo.
A cabeça, sensível, merecia particular atenção, para garantir mais comodidade, segurança e mobilidade do guerreiro. A protecção evoluiu ao longo do tempo;
- "coifa": peça em malha, usada sob outra protecção da cabeça "elmo" ou "bacinete";
- "chapéu de guerra": tinha copa baixa e aba muito larga (séc. XII), era útil no assalto a castelos pois protegia de projécteis lançados do alto;
- II capelo" protecção cónica duma peça, em ferro forjado, ou várias rebitadas entre si. Tinha "nasal" (barra vertical), protectora do nariz e "abas" a resguardar o rosto e ombros. O topo pontiagudo, foi substituído por peça cilíndrica (finais do séc. XII), por melhor resguardo de pancadas de lança que resvalavam na superfície arredondada. Uma chapa de ferro com aberturas protegia a face e permitia ver e respirar;

-" e/mo de cano ou baú/": cilíndrico, reforçado, incómodo pelo peso (superior a 6kg). As pesadas maças de armas permitiam pancadas de grande violência no alto da cabeça do adversário, o que obrigou a alterar o topo dos elmos para facilitar o resvalar dos golpes com apoio nos ombros do combatente para ter mais firmeza;
- "bacinete": devido ao peso do elmo de cano ou baúl, apareceu um capacete de ferro moldado à cabeça (finais séc. XIII). Tinha copa alta pontiaguda que protegia a nuca e cabeça com excepção da face, defendida pela "cara ou volante" (protecção móvel) com aberturas para ver e respirar. A segurança foi depois alargada aos ombros, peito e costas por cota de malha fixada no bordo .
- "barbuda": terá aparecido no reinado de D. Fernando, variante do bacinete, caracterizada por nuca larga e mais comprida, a proteger a face que cobria toda a barba, origem do nome;
- "capelina": constituída por copa alta de gomos reforçados com tiras de ferro.
Tinha pequena aba para protecção do pescoço e ombros. Era muito usada por peões por ser barata e de fácil execução. Arejada, leve, substituía em tempo
quente, o pesado e abafado elmo fechado;
- "e/mo boca de sapo": o peso não impedia ser usado em confrontos armados Uustas e torneios) compensado pela segurança que garantia (finais séc. XIV); .
- "emez" ou "armadura": protegia o corpo na totalidade ou parcialmente e era composto por peças variadas como:
- "babeira": garantia protecção do queixo e pescoço. Estava normalmente associada ao bacinete;
- "peitoral": protegia o peito, como o nome sugere;
- "amês de braço": conjunto de placas metálicas, articuladas entre si, que, protegiam o braço (do ombro à mão). Era composto por "ombreira" (ombro);
avambraço"(braço); cotove/eira"(cotovelo); "rebraço"(antebraço); "manopla" (mão) ;
- "panceira": conjunto de peças suspensas da cintura para sua protecção e da barriga;
-  "fraldão": peça em malha destinada à protecção do baixo-ventre;
- "ernez de perna": conjunto de peças metálicas, articuladas, a proteger a perna (da anca ao pé). Era constituído por "coxote" (coxa); "joelheira"
(joelho); "caneleira" (canela) e "sapata" (pé);

III - ARMAS INDIVIDUAIS OFENSIVAS

- "alabarda": arma de haste comprida com a extremidade ou cabeça em forma de machado (lâmina muito larga com gancho lateral) para derrubar o cavaleiro atacante. Era também encimada por espigão afiado para ferir;
- "arco inglês"(long bow): até ao renascimento as mesmas armas eram utilizadas na caça e na guerra e depois construídas conforme o fim a que se destinavam. O "arco" passou a arma oficial inglesa (D. Eduardo I), com cerca de cento e oitenta centímetros (altura do atirador), em teixo, madeira que aliava a rapidez à flexibilidade. Utilizava uma corda torcida (tripa ou cânhamo), fixada em peças de chifre encaixadas nas extremidades do arco que quando puxada atrás e libertada lançava a seta. O arco exigia um guerreiro forte, bem treinado, para atravessar tábuas de castanheiro com a espessura de vários centímetros.
O alcance variava com a qualidade da arma e a força do utilizador, rondava os duzentos e quarenta metros. Tinha a "cadência de tiro" (disparos por minuto)
até doze setas e cada atirador dispunha duma" dotação individual"1 (número de setas para uso próprio), de quarenta e oito setas. As setas do comprimento do braço podiam ser de natureza diferente (esteva, bétula ou freixo) que na extremidade posterior apresentavam "rectrizes" (lemes de penas de ave), para estabilizar o voo. As pontas, metálicas, eram untadas com sebo para facilitar a penetração no alvo. Em combate era disparado na direcção do alvo, mas com bastante inclinação para cima, de modo a obrigar a seta a fazer um percurso curvo. Muitas setas disparadas ao mesmo tempo formavam uma cortina vertical para deter o ataque da cavalaria adversária. Foi utilizado na Batalha Real (de Aljubarrota) pelos arqueiros ingleses com bastante êxito.
- "bests": generalizou-se na Península Ibérica (finais do séc. XII) ao substituir o arco árabe de curva dupla, quando veio para a Europa com I Cruzada. O seu poder e eficácia causaram grande admiração que levou a Igreja (II Concilio de Latrão em 1139), a proibir a utilização entre cristãos, sob pena de excomunhão,
Apontada directamente ao alvo disparava um "virote" (seta de trinta a cinquenta centímetros) com ponta triangular de ferro, de vários feitios, conforme o fim a que se destinava. O nome deriva da "rectriz em espiral" que obrigava a seta a virar ou rodar em torno do eixo enquanto fazia o percurso aéreo. O movimento tornava a trajectória mais direita, permitia a seta chegar mais longe e maior capacidade de penetração no alvo. Tinha a ponta envenenada com o suco extraído duma erva conhecida por "erva besteira". Podia disparar "bodoques" (bolas de barro) e "pelotes" (projécteis de chumbo). Cada besteiro dispunha de trinta virotes como dotação pessoal. Muito potente, com alcance superior a duzentos e sessenta metros, tinha coronha de madeira sobre a qual se cruzava na horizontal, a noventa graus, um arco que funcionava com corda de linho ou cânhamo. A corda era retesada e segura num entalhe pela "noz", peça dura com o feitio de um cilindro deitado, accionado pela alavanca (gatilho) que a obrigava a rodar e libertar a corda que disparava o virote. O arco de madeira foi substituído por um de aço, mais potente (séc. XIV) que exigia muita força para armar. O arco metálico obrigava a utilizar mecanismos para esticar a corda até ficar preza pela noz. Os aparelhos de armar deram nome às bestas (gafa, polé, torno, garrucha e cranequim). A potência da besta com arco de aço era enorme e não havia armadura que resistisse ao virote disparado.
Conta-se a ilustrar esta força, que em batalha um virote atravessou a perna do cavaleiro (protegida pelo arnês) arreio, cavalo, saiu do outro lado e atravessou a perna contrária do mesmo cavaleiro.
Havia também as bestas de garrucha, mais leves e menor alcance, com estribo onde os besteiros enfiavam o pé para puxar a corda com o gancho que traziam enfiado no cinto até a prender na noz. Os besteiros portugueses utilizaram com êxito as suas bestas na batalha Real.
A importância da utilização do arco e da besta nas batalhas medievais torna interessante uma comparação rápida entre elas:
Vantagem da besta
- a besta "arma que mata e não espanta", permitia a aproximação silenciosa, com a arma pronta a disparar de surpresa sem denunciar a presença ao
adversário;
- os movimentos amplos para armar o arco, obrigam a posição de disparar com o atirador de pé, (alerta o adversário) e a corda esticada força disparo imediato;
- a besta lançava a seta mais longe que o arco.
Vantagem do arco
- a corda da besta, contrariamente à do arco, não podia ser retirada molhada (caso de chuva), o que provocava imprevista e frequente inoperacionalidade
- a besta era mais pesada que o arco (cerca de sete quilos) e mais difícil de utilizar;
- um arqueiro podia disparar até doze setas por minuto( velocidade de tiro)
enquanto um besteiro não disparava mais que quatro virotes (às vezes)
- "cutelo": arma rústica, camponesa, com lâmina de ferro dum gume tem cabo de madeira;
-"daga": arma pontiaguda de dois gumes, mais comprida e larga que o punhal;
-"dardo": espécie de lança, curta e delgada, para arremesso a curta distância;
-"espada": símbolo de chefia e poder, tem significado cavalheiresco de glória.

A Igreja apercebendo-se do seu valor santificou-a, tomou-a símbolo da Cruz e protecção contra o mal. O possuidor sentia-se obrigado a proteger a Igreja. Foi estabelecida forte afeição entre o cavaleiro e a sua espada, pois identificava nela a virtude do comportamento que moralmente era obrigado a cumprir. A simplicidade da arma, sem artifícios, recordava comportamento simples, austero, voluntarioso, distante de interesses materiais, dedicado ao serviço de ideal superior numa prática da fraternidade ao serviço dos mais desprotegidos.
A lâmina direita, pontiaguda, de dois gumes, impunha consciência recta, uma só palavra de verdade sempre assumida. A honra de cavaleiro obrigava ao respeito da palavra dada, impedia a falta à verdade e uso de artimanha para mascarar desejos sem justificação. Presença constante na conduta mais importante do homem adquiriu enorme valor espiritual , considerada por isso objecto sagrado. O tempo trouxe mudanças que brevemente vamos recordar:
- o reinado de D. Sancho I (início), talvez pela Cruzada, trouxe a utilização de armaduras de muitas peças que alteraram o armamento ofensivo.
- até ao séc. XIV tinha guardas direitas, era leve( mil e duzentas gramas), curta (até cento e dez centímetros) ,própria para atacar adversário com cota de malha, pois a lâmina (robusta, larga e sem ponta), servia para "talar" (bater e derrubar).
- alterou-se bastante, ficou mais comprida, com lâmina de bico e guardas curvas, o que deu origem a outras armas como:
- "espada cinta": ligeira, usada em campanha, no lado esquerdo da cintura;
- "espada de armas": mais comprida e pesada, era transportada penduradano lado esquerdo da sela. Salientou-se o "estoque", pontiagudo, para ferir nos intervalos da armadura;
- "espada de duas mãos": bastante grande, com punho de duas mãos, para golpear com grande violência. A lâmina não tinha gume (ricasso) junto ao guarda mão, cerca dum terço, para ser utilizada como lança curta.
Este tipo de arma era composto por cinco peças:
- "pomo": botão saliente no topo do punho que equilibrava e garantia a ligação entre todas as peças. Era utilizado no "golpe de misericórdia", (pancada forte) no alto da cabeça do adversário para lhe acabar com o sofrimento;
- "punho": parte da haste que permitia utilizar a espada (uma ou duas mãos);
- "guarda-mão": haste, direita ou curva, que protegia a mão que segurava a arma dos golpes da arma do adversário;
- "Jãmina": parte da espada que feria o opositor, temperada, para ser flexível e resistente aos golpes. Era aquecida até ficar em brasa, mergulhada em água fria e protegida por bainha de duas ripas de madeira de cedro envolvidas em pele de gamo;
- "facha ou acha de armas": machado de guerra com cabeça em forma de martelo, era manobrado com duas mãos devido ao peso. Tinha muito sucesso no combate corpo a corpo, pois permitia dar violentos golpes verticais, mortais, no alto da cabeça do antagonista. Desempenhou papel decisivo na batalha Real no confronto entre Sandoval, fidalgo castelhano, e D. João I em que o rei português foi salvo por Martim de Macedo da Ala dos Namorados.
- "funda": constituída por duas tiras de cabedal ligadas à "colher", (zona larga) onde era colocado o projéctil a lançar. Muito vulgar, era utilizada pelo atirador que após colocar o projéctil na colher, agarrava as pontas, volteava-as com velocidade crescente e ao largar uma das tiras atirava o projéctil à distância.
- "lança": arma significante do cavaleiro medieval, era constituída por ponta, canteira, base e ferro {da base para a ponta). A zona de junção conteira-haste era marcada com a "arandela" (guarda metálica circular) , para proteger a mão que segurava a lança;
- "lança de armas": com cerca de quatro metros era utilizada por guerreiros montados ou apeados colocados nas filas da frente;
- "maça": espécie de cacete curto com cabo cilíndrico e volumosa cabeça esférica de ferro guarnecida por conjunto de facas grossas, cortantes, radiais .
Era utilizada para desfazer a armadura do antagonista;
- "pique": lança muito comprida, com mais de cinco metros, utilizada por combatentes apeados para deter a cavalaria inimiga atacante;

IV - ARMAS COLECTIVAS

Na Idade Média os chefes de forças combatentes evitavam lutas em campo aberto, consideradas breves e de resultado duvidoso. O confronto mais vulgar era um dos contendores, por norma o mais fraco, refugiar-se num sítio fortificado que o opositor ía cercar e procurar conquistar. Para isso o atacante utilizava armas volumosas e pesadas que exigia o esforço de vários homens e por isso considerada colectiva. Umas eram utilizadas para proteger atacantes na aproximação às muralhas (anteparos, galerias e torres) e outras conhecidas por "engenhos de bater" serviam para destruir as defesas (catapultas, balistas, trabuquetes).A terminar iremos apresentar apenas duas:
- "catapulta": de estrutura, conforme à função e técnica do construtor, era guardava cuidadosamente a proteger o segredo da obra. Pesada era construída no local onde seria usada, depois desmontada e a madeira reaproveitada. Compunha.se de alavanca de cerejeira a terminar em colher onde se colocava o projéctil a lançar. Na outra extremidade era enrolada uma corda torcida de linho e cânhamo, forte e elástica, para impulsionar o braço da catapulta que rodava que quando parava lançava o projéctil à distância. A dimensão da arma e violência do disparo exigiam estrutura forte. Um braço de três metros lançava pedras com vinte e três quilos a quatrocentos e onze metros.
- -lIbombarda ou trom": arma de fogo primitiva em ferro forjado com um "calibre"",(diâmetro do interior do cano ou tubo) de catorze centímetros (cerca)..
Utilizava os gases da combustão da pólvora no interior do cano para lançar uma bola de pedra ou ferro de nove quilos a uma distância de cerca de mil
metros. Parece ter sido utilizado, com pouco êxito, pelas forças de Castela na Batalha real ou de Aljubarrota.

PARA SABER MAIS
-BAENA, Miguel Sanches, Torre de menagem do castelo de Leiria. Annamento medieval CML;
-LOPES, Fernão , Crónica de D. João I, Ed.Barcelos, 1990;
-MONTEIRO, João, Gouveia, Aljubarrota revisitada, Imprensa da Universidade- Coimbra,2001;
-OLIVEIRA, fredertco , Alcides,de, Aljubarrota dissecada, CHM -1970;
-TEIXEIRA, Marta, Emília, Amaral, Sobre o loudel de D. João I, ME.SEIC, Lisboa, 1973.