domingo, 17 de janeiro de 2016

XIX - Actividade Naval Portuguesa até ao século XVI

I- Antecedentes
Portugal foi sempre influenciado pela proximidade do mar que naturalmente deu origem e condicionou a sua conduta marítima, brilhante na “era dos descobrimentos”, que afectou o mundo da época. Foi um desempenho colectivo de enorme qualidade, invulgar, que merece ser evocado, embora de passagem, com referência oportuna pela vizinhança oceânica na região de Caldas da Rainha. Virado ao Oceano Atlântico, apontado pelos rios, praticou a pesca, base económica nacional desde a sua fundação no século XII. Construiu e manobrou “pinaças” (barcos em pinho). Aprendeu técnicas antigas para navegar à vela ou a remos, com gente experiente, pois andar ao cimo das águas a afrontar perigos vários (correntes, marés e ventos) era tarefa difícil, exigente e obrigava a marear com a terra à vista, que terá dado origem à designação dos lados do barco face à proa (“bombordo”, à esquerda ou lado bom e “estibordo” à direita).   Ter estabilidade e equilíbrio sobre a água, preocupava os embarcados, que foram obrigados a construir cascos de boca larga que facilitavam a manobra de pesca (lançar ou recolher) redes e exigia pequena tripulação (pessoal em serviço).
A pesca e o transporte marítimo eram as principais actividades da navegação costeira.
O contacto com mercadores doutros lugares (Flandres, Hansa, Itália, etc.) permitiu alargar o intercâmbio Norte-Sul, que facilitou a troca comercial dalguns produtos (carne, cereais, vegetais, peixe, vinho, sal, etc.) transportados no meio mais seguro, fácil e rápido da época. O incremento mercantil atraiu contudo visitantes indesejados (piratas) que tomavam navios e assaltavam populações, o que obrigou os reis portugueses a organizar uma “esquadra” (conjunto de navios de guerra) de galés, para defender o litoral como os povos mediterrânicos.           
A antiga influência árabe, dominante da Península Ibérica ao Médio Oriente, levou a pedir ajuda aos cruzados que demandavam a Terra Santa, para fazer face à ameaça. A situação, sentida na vertente náutica pelos êxitos na África Setentrional e Península Ibérica, deu origem a nova prática marítima com a vela “ala trina” (triangular) usada até então em função auxiliar, para o desempenho de função importante na progressão, a utilizar contra o vento. O génio árabe tirou partido da leveza e transferência de peso face à imobilidade da carga cristã. As naves islamitas, ágeis, de bolina cerrada, melhoradas por piratas e corsários eram preferidas, pelo volumoso velame latino. Pequenas (50 a 100 tonéis), de pouco calado, circulavam com facilidade em fundos baixos, operadas por tripulações de 10 a 20 elementos. 
As cidades marítimas portuguesas estabeleceram relações próximas com o comércio internacional (Flandres, Hansa, Itália) que permitiram ampla troca de conhecimentos e aperfeiçoaram a arte de marear.          A exigência de carga que rentabilizava a actividade obrigou a aumentar o casco e “calado” (distância da quilha à linha de flutuação).       
As embarcações simbolizam, resumem e enaltecem a epopeia marítima de Portugal á semelhança doutros povos (“baris” egípcio, “pentecoutore”  grego, “biréma”  romana, “drakkar” escandinavo, “chèlande” bizantina, que procuraram alargar o prestígio na arte de navegar a espelhar a cultura e a vontade dum povo. O número e tipo de navios  ao longo dos séculos, de difícil catalogação, foi variado e numeroso.
A “caravela” do séc. XII, muito utilizada e bastante alterada no séc. XV, tinha o nome derivado da embarcação árabe “carávo”. Existiam na circunstância caravelas diferentes, designadas por:
- “pescareza” (pesca) de cabotagem, referida por D. Afonso III (1255) no foral de Vila Nova de Gaia, era pequena, de boca aberta, com quilha e vela triangular;
- “de descobrir” (reconhecimento), veloz, eximia bolineira, baixa, de boca aberta, por vezes coberta, com o mastro principal a meio acompanhado por 2 ou 3 do lado da proa, sendo o maior de vante, que suportavam volumoso e variado velame latino.
D. Sancho II (1223-1248) distinguia “pescadores” (praticantes da faina da pesca), de “marinheiros” (armados) que faziam “abordagem” (juntavam os barcos) para tomar o barco antagonista. As embarcações tinham parte activa na luta quando utilizavam o esporão da proa para abrir rombos no casco adverso e o castelo (torre na popa) para facilitar a defesa e tornar eficaz o ataque. 


A necessidade mercantil por exigência económica obrigou ao aumento do casco e “calado” (distância da quilha à linha de flutuação), para garantir uma rentabilidade, proporcional à carga, que deu origem à “barca” (navio largo, impulsionado por ampla “vela “redonda”  (transversal ao sentido popa-proa) que recebia o impulso do vento vindo da ré, orientado pelo leme colocado na “alheta” (curva do costado do navio colocado na popa).          D. Dinis incrementou a utilização de novas embarcações (naus, galés, etc.) e para proteger o crescente comércio costeiro externo engajou o genovês Emmanuele Pessagno para comandar a marinha mercante e organizar a de guerra.
Os navios, aparelhados para navegar “ao pego” (mar profundo), deram origem à “galé” (de casco alongado e baixo de influência mediterrânica) e à “nau” (de bordo alto para afrontar o agreste Oceano Atlântico Norte). Os navios distinguiam-se dos barcos por melhor capacidade náutica. Tinham ambos parte da “boca” coberta e pequeno convés na popa. O mastro a meio, preso por ”enxárcias” (cabos de sustentação), suportava a “clacês” (pequena torre de vigia ou de combate). As relações com a marinha mediterrânica permitiram a melhoria em organização, domínio da técnica e conhecimento cientifico, aprendidos nas rotas dos “portelanos” (mapas antigos com rosa dos ventos, portos e outras indicações náuticas) assim como a orientação por bússola.  A madeira do pinhal de Leiria e doutras matas facilitou a construção de embarcações de 50 “tonéis” (tonel correspondia a 1,5m3), permitindo à marinha mercante o transporte de cargas progressivamente maiores.
D. Fernando (1367-1383) criou as “frotas” (conjuntos de navios) de naus (mercante) e galés (armada) que fazia a guerra. Organizou o “seguro marítimo” (caixa de depósitos para cobrir avarias e naufrágios) e a “Companhia das Naus” onde se registavam os navios e que concedia privilégios aos construtores das embarcações de maior tonelagem.
Os navios ao adquirirem características fixas e precisas necessárias ao cabal desempenho da função eram referidos pelo nome do novo modelo ou tipo.

As viagens marítimas, em cada fase, utilizaram navios diferentes com determinadas especificidades, como fuste, bergantim, fragata, caravela, etc.) do séc. XIV. O período inicial caracterizou-se por usar embarcações semelhantes às usadas na cabotagem e pesca marcadas pela influência mediterrânea (porte reduzido, pesadonas, lentas), popa, redonda, guarnecida com “castelo” dum pavimento. A inclinação da bolina devido à ausência de quilha de compensação obrigava a flancos bojudos e proa afilada.
D. João I com o reinado marcado por surtos de peste bubónica motivadores de grave despovoamento, economia concentrada e o abandono da agricultura levou à faina marítima facilitada pela maioria da população, fixada em zonas costeira, a praticar pesca e comércio.    A intensão inicial de D. João I, conforme Gomes Eanes de Zurara seria “…Eu não o teria por vitória, nem o faria em boa vontade, ainda que zoubezze cobrar todo o mundo por meu, ze não zentizze que alguma maneira era zerviço de Deus” (Crónica da Guiné, cap.IX)..”. Os navios dos descobrimentos, séc. XV, evoluíram para três mastros, mas devido ao sigilo ordenado por D. João II até ao Tratado de Tordesilhas pouco se sabe sobre eles. A outra embarcação “nau”, era barco de longo curso, de grande porte, em oposição a menor para percursos pequenos.
Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador (1434) meta da passagem das viagens costeiras a oceânicas, caracterizadas por ventos alíseos que sopravam na mesma direcção (dos Trópicos para o Equador) a exigir bons conhecimentos náuticos e geográficos.
A experiência deu origem à caravela, de reconhecimento, rápida, excelente na manobra e bolina (capacidade de navegar contra o vento), de dimensão e calado, modestos, podendo se necessário ser movida a remos passados pela borda.
Bartolomeu Dias em caravela dobrou o Cabo da Boa Esperança que inaugurou a passagem do Oceano Atlântico ao Oceano Indico e abriu o caminho para o Oriente. Foi tempo para estabelecer feitorias, bases permanentes, relações comerciais e de colonização que obrigaram à utilização de navios de muito maior porte, capazes de transportar infinitas toneladas de provisões, carga e muitas tripulações marinheiras. Surgiram “as caravelas da armada” modificadas, bojudas, de grande calado, de borda alta para afrontar o profundo mar agreste, com castelos de proa  e popa elevados (daí o nome), e armação redonda, capaz de imprimir o impulso necessário, de 2, 3 ou 4 mastros principais, cada vez mais altos, com 2 ou 3 ordens de velas sobrepostas e muito velame auxiliar.
Vasco da Gama iniciou o caminho para a India (1497) pela rota aberta por Bartolomeu Dias com uma frota de três naus e uma caravela. 

II – Descobrimentos portugueses (1415-1543)     
A actividade náutica portuguesa, secular, decorreu durante os reinados em seu tempo adiante referidos.    
- D. AFONSO IV (1325-1357)
Expedições prováveis às Ilhas Canárias;
- D. JOÃO I (1385-1433)
- 1415, conquista de Ceuta no Norte de África referida como início da “era dos descobrimentos”, época de deslumbramento para os europeus. O relato dos feitos nas suas circunstâncias, foi iniciado por Gomes Eanes de Zurara em “crónicas do descobrimento e conquista da Guiné”. O feito merece evocação, mesmo breve, pela importância, dificuldade e consequências universais, que tentaremos recordar considerando os acidentes geográficos que podem ter definido etapas, balizado pelos respectivos reinados;
 - 1419, descoberta da Ilha de Porto Santo (João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira);
- 1420, descoberta da Ilha da Madeira (mesmos navegadores e Bartolomeu Perestrelo), logo colonizada;        - 1422, ultrapassado o Cabo Não, considerado limite navegável a Sul; 1427, descoberta das Ilhas orientais e centrais açorianas (Diogo de Silves) e colonizadas em 1431 (Gonçalo Velho Cabral);


- D. DUARTE (1433-1438)
- 1434, dobrado o “aterrorizador” Cabo Bojador (Gil Eanes);
- 1435 /6, descoberta do Rio do Ouro (Gil Eanes e Afonso Gonçalo):


- D. AFONSO V (1438-1481)
- 1441, descoberta do Cabo Branco (Nuno Tristão e Afonso Gonçalo)
- 1443, entrada no Golfo de Arguim (Nuno Tristão) e a  “ Bula Rex regum” atribui ao infante D. Henrique a costa africana descoberta;
- 1444, descoberta do Cabo Verde, Dakar, e Ilha de Palma (Dinis Dias);
- 1445, chegada ao Cabo Roxo, Guiné Bissau, (Álvaro Fernandes);
- 1446, chegada ao Norte da Guiné Bissau (Álvaro Fernandes);
- 1452, descoberta das ilhas Flores e Corvo dos Açores (Diogo de Teive);
- 1455, bula “Romanus Pontifex” confirma explorações portuguesas e declara que as terras e mares a Sul dos Cabos Bojador e Não são pertença dos reis de Portugal (Papa Nicolau V) e exploração dos rios Gâmbia e Gebe, Guiné Bissau ( Alvise Cadamosto);
- 1456/60, descoberta de ilhas Boavista, Santiago, Maio e Sal do Arquipélago de Cabo Verde (Alvise Cadamosto, Diogo Gomes, António da Noli);           
- 1460, morte do infante D. Henrique, descoberta da Serra Leoa e Mar dos Sargaços (Pêro de Sintra);
- 1461, descoberta de ilhas de Cabo Verde (Diogo Gomes e António da Noli);                                           
- 1462, descoberta de cinco ilhas ocidentais, Brava, São Nicolau, São Vicente, Santo Antão, ilhéus Branco e Raso de Cabo Verde (Diogo Afonso);                    
- 1469, contrato para exploração de pimenta na costa da  Guiné a Sul da Serra  Leoa (Fernão Gomes);          
- 1471, descoberta da Costa da Mina, Cabo Três Pontos e delta do Niger (João de Santarém e Pedro Escobar);
- 1472, chegada a Benim, Nigéria (Rui de Sequeira);
- 1472/3, exploração dos Camarões, Ilhas Formosa e Ano Bom (Fernando Pó);
- 1473, descoberta da foz do Ogooué a cruzar a linha do Equador (Lopo Gonçalves);                       
- 1479, Tratado de Alcáçovas que estabelece os controlos de Portugal (Açores, Guiné) e Castela (Ilhas Canárias);    


- D. JOÃO II (1481-1495)
- 1482/4, descoberta da foz do rio Congo com subida de 150km ás cataratas de Ielala (Diogo Cão);
- 1484/6, contacto com o reino de Benim, Nigéria, onde encontram pimenta que pode indiciar a proximidade da India (Afonso de Paiva, Duarte Pacheco Pereira e José Vizinho);
- 1485/6, chegada a Walvis Bay, Namíbia (Diogo Cão, II viagem);
- 1487, subida do rio Senegal até Timbuctu (Gonçalo Eanes e Pêro de Évora);
- 1487/8, dobragem do Cabo das Tormentas (Boa Esperança), entrada no Oceano Indico  (Bartolomeu Dias) e chegada a Adém (Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã);
- 1494, o Tratado de Tordesilhas divide o mundo por descobrir entre Portugal e Espanha;


- D. MANUEL I (1495-1521)
- 1495, viagem à Groelândia (João Fernandes Lavrador e Pêro de Barcelos);
- 1497/9, viagem de circunavegação a África até Calecute, India, com regresso (Vasco da Gama);
- 1498, exploração do Atlântico Sul (Duarte Pacheco Pereira);
- 1500/1, viagem a Porto Seguro, Brasil (Pedro Álvares Cabral);
- 1500/1, viagem a Terra Nova, Canadá (Gaspar Corte Real e Miguel Corte Real);
- 1500, descoberta de Madagáscar (Diogo Dias);
- 1502, descoberta no regresso das Ilhas Seychelles (Vasco da Gama) e da Ilha da Ascenção (João da Nova);
- 1503, descoberta da Ilha de Santa Helena (Estevão da Gama); 1505, descoberta da Ilha de Ceilão, Srilanka, (Lourenço de Almeida);
- 1506, descoberta da Ilha de Tristão da Cunha (Tristão da Cunha); 1507/12, visita às Ilhas Mascarenhas (Pedro de Mascarenhas);
- 1509, travessia do golfo de Bengala, chegada a Sumatra e Malaca (Diogo Lopes de Sequeira);
- 1511, chegada à Tailândia (Duarte Fernandes) e Birmânia (Rui Gomes da Cunha);

- 1512, chegada às Ilhas Timor, Banda, Ambão e Serem (António de Abreu);           
- 1512/14, exploração do Rio da Prata, Argentina e Uruguai, (João  de Lisboa e Fernando Fróis);            
- 1513,chegada ao Mar Vermelho (Afonso de Albuquerque), idem à foz do Rio das Pérolas, (Afonso de Albuquerque) e lançar ancora ao Sul da China (Jorge Alves);                     
- 1516, chegada à Cochinchina (Vietname);
- 1525, descoberta provável da Austrália (Cristóvão de Mendonça e Lopes de Sequeira);
- 1526, chegada a Nova Guiné (Jorge de Meneses);
- 1529, Tratado de Saragoça a estabelecer o limite a Leste para as explorações portuguesas e espanholas para solucionar a “questão das Molucas”;                 
- 1538, chegada a Papua-Nova Guiné (João Fogaça);                 
- 1542/3, chegada ao Japão (Fernando Mendes Pinto, Diogo Zeimoto e Cristovão Borralho);


PARA SABER MAIS
- ALBUQUERQUE, Luís de, “Os descobrimentos Portugueses”, Academia Portuguesa de História e Academia das Ciências de Lisboa. Publicações Alfa, 1986;                                                
- “Caravelas, Naus e Galés de Portugal” Livraria Chardron, Porto;