domingo, 27 de dezembro de 2015

XV - Alimentação Medieval

I - GENERALIDADES

Alguns estudiosos consideram que o Homem iniciou o cultivo do solo, há cerca de 15 000 anos, quando começou a domesticar animais para o ajudar em tarefas agrícolas ou servir de alimento em tempos de escassez. Vestígios arqueológicos parecem indicar que fenícios e egípcios teriam aprendido a cozinhar com gregos, que de longas viagens marítimas, traziam alimentos desconhecidos de todos (especiarias e ervas aromáticas).
Os romanos na conquista à Grécia aprenderam a cozinhar como relata Cadmus, notável cozinheiro da época. A gastronomia (arte de cozinhar para dar prazer a quem come) atingiu nível elevado com os césares romanos que deslumbravam convidados com banquetes apetitosos de comida preparada de modo inovador e complicado conforme Aspícius, cozinheiro romano, autor do livro mais antigo de cozinha que se conhece.
A queda de Roma deu oportunidade para a invasão da Europa por bárbaros (designação romana) que cozinhavam de modo simples e sóbrio.
A culinária medieval é considerada por Jacques Le Goff atitude social “a alimentação é a primeira ocasião para os estratos sociais dominantes manifestarem a superioridade”. É importante manifestação que espelha o comportamento de determinado povo. Tentaremos abordar o tema nas vertentes: generalidades, banquetes, comportamento à mesa e conclusões (face ao presente). Necessária consiste em ingerir alimentos que quando transformados passam a pertencer ao corpo do hospedeiro. Depende de factores: lugar de morada (origem do alimento), compromissos religiosos e sociais que deram origem a comportamentos diversos.
A Península Ibérica, local onde o Mediterrâneo encontra o Atlântico, foi visitada por sucessivos povos que deixaram memórias enriquecedoras da cultura local. A mistura dos saberes talvez explique a postura ibérica, em especial a portuguesa, na convivência com povos distantes e distintos.
Os egípcios cultivavam (4 000 a. C.) trigo, cevada e outros vegetais (alho, lentilha, cebola, alho-porro, etc.) que dedicavam ao deus Min, patrono da agricultura e fertilidade, assim como amêndoa, figo, laranja, limão, romã e tâmara, parte significativa da ementa mediterrânica. O sangue dos animais sacrificados era utilizado em morcelas, o pão, recheado com fígado ou baço, consumido em ocasiões especiais. A carne bovina (sobejos) utilizada em cerimónias importantes era conservada seca e consumida mais tarde.
A Europa, constituída por áreas alimentares características, como a está em redor do mar nostrum romano” (Mediterrâneo) deu origem à alimentação mediterrânea, retratada em memórias antigas (túmulos egípcios, cerâmica grega, etc.) que apontavam o trigo como o cereal mais utilizado, que moído com água e sal, amassado, era cozido sobre pedras quentes. Comer pão é ainda sinónimo de refeição. Uma família pobre comia por dia cerca de 1800 gramas de pão simples, enquanto a abastada juntava à farinha água e mel para fazer bolos. A comida doce era apreciada por alguns povos, como os egípcios (2500 a.C.); os sírios, que misturavam a farinha com mel, ervas, cozinhada em recipientes de barro enterrados e cobertos com brasas; os gregos que gostavam de bolos cozidos em cinza; enquanto os árabes, apreciadores de bolos e doces, utilizavam a cana-de-açúcar, partilhada ao iniciarem o cultivo e instalação de refinarias para várias qualidades de açúcar, a melhor na alimentação e a pior (mal refinado, escuro, com gosto acentuado) em animais ou medicamento. As leguminosas (ervilha, fava, feijão, etc.) entravam em muitas refeições enriquecidas com azeite, que pela qualidade era gordura de referência e ingrediente alimentar preferido. O vocábulo azeite deriva de “az-ait”, árabe, que significava “sumo de azeitona” . Funcho e cominhos eram condimentos muito utilizados, como pimenta indiana chegada no séc. II. Gorduras animais (manteiga ou banha) e vegetais (azeitona, linho, sésamo e rícino) eram utilizadas em frituras muito apreciadas. As aves de capoeira (patos, perus, gansos, pombos e codornizes) e selvagens como o pelicano eram outra fonte alimentar. A galinha chegou depois trazida por romanos.
O tema justifica visita breve à época medieval balizada pela derrocada do Império romano do Ocidente (séc. V) e queda de Constantinopla (séc. XV). Os árabes e hebreus viveram séculos na Península Ibérica onde deixaram marcas na alimentação local com condutas que se mantêm. A pastorícia do carneiro, preferida, foi salientada no deus egípcio Amon, representado com cabeça deste animal.  
O infante D. Henrique, 1452, mandou plantar cana sacarina na Madeira e montar engenhos de refinar, que tornaram Portugal o maior fornecedor de açúcar da Europa. 
Os povos mediterrânicos comiam com frequência vegetais (couve, aipo, celga, feijão-verde, espinafre, beringela, pepino, couve-flor, espargos, cenoura, alcachofra, etc.) e variados frutos secos, inteiros ou moídos.   
Os hebreus consideravam o carneiro pascal alimento festivo, sinal de abastança, mas a festa de apresentação dum recém-nascido era de galinha com arroz de azeite e a sobremesa de filhós adoçados com mel.
A cerimónia de falecimento, luto pesado, era familiar em refeição conjunta de peixe cozido, legumes, ovos, azeitona e fruta com água ou chã.         
A ceia pascal no reino de Aragão, salada de legumes com aipo, borrifada com vinagre, era acompanhada de grão-de-bico, ovos e mel. Ortensio Lando (1548) no “Catálogo dos inventores das coisas que se comem e bebem” registou que as massas alimentícias tiveram origem numa amostra que Marco Pólo teria trazido da China e que de Veneza partiram para a Europa.
 O vinho, bebida predilecta, de uva, tâmara, romã ou figo (mais alcoólico), conservado em “ânforas” (grandes vasos com asas) eram revestidos de cera ou resina a tapar os poros do barro para evitar a fermentação da bebida que transportava.
A oliveira e a vinha tiveram sempre desempenho importante na cultura e cozinha peninsulares, merecendo por isso reflexões dilatadas. O azeite, gordura extraída da azeitona por processo mecânico dá origem a um “sumo de fruta” rico em aroma e sabor.
A Grécia e a Fenícia praticaram o cultivo de olivais no período mais rico das suas civilizações, que terá levado aqueles povos a considerar estas culturas fontes de riqueza e progresso. A cozinha praticada centrava-se em trigo, azeite e vinho, nobres por serem preparados pelo homem e com importância reforçada por forte simbologia que ligava o homem à terra.
O azeite simbolizava ”paz” (pomba com ramo de oliveira no bico), “força”, ”vitória”, “glória” (vencedor untado com azeite), ”purificação” (limpava e purificava bebés recém-nascidos), “vida” (comida, iluminação, tratamento e liquido sagrado que iluminava os deuses) e “morte” (preparava o corpo do defundo para descer à terra a iniciar a ida para a eternidade).
Os gregos consideravam o azeite, liquido sagrado, utilizado apenas por virgens e homens puros que também podiam tratar de oliveiras.
Em Portugal, no século passado, os alentejanos tinham o hábito, antes de começar a arar uma terra que estivesse muito tempo em repouso de untar com azeite o bico da relha do arado para penetrar na terra com suavidade de modo a fecundação ser rápida e fácil.   
A importância marcante do vinho, foi referida em textos da época, por ser utilizado em múltiplos usos (consumo diário ao litúrgico) de protagonismo próprio na vivência medieval. A sua produção contribuiu para a mudança económica significativa de numerosas regiões do sul da Europa.
O desenvolvimento das vias e meios de comunicação permitiu o consumo de alimentos distantes, como o melão asiático em Avinhão (séc. XIV).
A descoberta das Américas trouxe conhecimento e utilização de inúmeros produtos da terra que vieram alterar a alimentação na Europa. Hoje é difícil imaginar um menu sem batata, tomate, pimento ou chocolate entre outros. A adopção, por vezes difícil, teve de ultrapassar barreiras, temores por ignorância, levando alguns produtos a demoras para serem populares. Em troca o Novo Mundo conheceu alguns produtos (trigo, videira e vinho). A peste negra entretanto, muito transmissiva, provocou na Europa (1348-1360) enorme devastação matando cerca de dois terços da população. O contágio foi reduzido quando se deixou de comer deitado, costume grego e romano, ao optar-se pela posição “ sentado” que permitia libertar as mãos para utilizar a faca e garfo em pratos individuais.
A água essencial à vida, recolhida da chuva em casa, era guardada em cisternas para evitar a transmissão de doenças e efeito de envenenamentos.
Julga-se que os incêndios florestais possam ter dado a conhecer ao homem as delícias da carne assada, mais tenra e apaladada que a crua. O facto deu origem à prática culinária que partilha a alimentação, modo de vida dos diferentes agregados sociais. As primeiras receitas foram da Mesopotâmia e datam 2 000 anos a. C.
A Europa preferiu cozinhar carne e peixe que noutros sítios eram comidos crus. O norte, chuvoso, dispunha de zonas ricas em caça de grande porte (veado, javali, urso) enquanto no sul, mais seco, eram consumidos animais de pequeno porte (caracóis, aves, coelhos, lebres, etc.), acompanhados quase sempre com vegetais. O frango e cabrito, por norma cozinhados com toucinho, levavam molhos ricos em legumes. Os recursos naturais disponíveis, o poder de aquisição e condutas sociais deram origem a diferentes modos de comer. A classe mais abastada, tinha alimentação abundante e variada, enriquecida com produtos vindos de longe, enquanto a campesina, humilde, alimentava-se de modo monótono e pobre (pão escuro de milho painço, cevada, grainha de uva ou bolota com papas). A distinção social manifestava-se sem pudor pela quantidade e qualidade do alimento consumido. As classes mais elevadas, ricas, comiam muito para vincar a sua superioridade, pois comer com ostentação significava poder, saúde, riqueza, prestigio e força. A carne, alimento dos senhores, marcava a distinção, com a peça maior quase sempre assada. Deixar de comer carne era castigo humilhante para qualquer nobre. O excesso, evidente, levou D. Afonso IV a publicar, 1340, a “lei pragmática” para reprimir os abusos à mesa.
Os monges nos mosteiros procuravam obedecer à moderação alimentar com vegetais a desempenhar papel importante em quase todas as refeições. As refeições diárias eram:
 - jantar, mais importante, servido cerca das 10h30, consistia em sopa  de verdura e sêmola de cereais (incompletamente moídos), acompanhada por carne de carneiro ou porco, guarnecida com verduras, pão, vinho e fruta da época;
- ceia, menos abundante, entre as 18 e 19h00,” antes da deita”, constava de um pedaço de carne e vinho.
Em dias de jejum e sextas-feiras, era servida uma sopa de verdura, legumes secos cozidos e peixe ou queijo quando possível.
A alimentação de gente campesina (escassa, espalhada pelos bosques, rude, ignorante e pobre) era de produtos da terra (cereais, legumes e verdura), com carne fresca ou seca, de capoeira ou caça pequena (coelhos, lebres, perdizes), acompanhados por, feijão-verde, fava couve e ervilha. O pão disponível de sêmola (cereais incompletamente moídos).
O povo árabe, respeitador da alimentação, considerada “dádiva de Deus”, era moderado no consumo e partilhava a comida com mais necessitados. Dominava as técnicas de armazenar, conservar os alimentos e guardar os cereais em silos enterrados tapados com cuidado para evitar a germinação. O peixe, consumido na falta de carne ou prática religiosa, com excepção do atum, sardinha e sável, era seco ou conservado em salmoura com grande quantidade de ervas aromáticas. Para assar no forno, retirava com cuidado escamas e vísceras, recheava com pão, nozes, amêndoas, muita erva aromática e temperava com sumo de uva. Seco de salmoura era posto em molho para sair o sal, como se faz no bacalhau, mas frito poucas vezes por causa do cheiro desagradável. Escritor andaluz garantia que as especiarias eram boas a evitar o mau gosto, diferenciar sabores e melhorar o paladar.
O arroz cozido em leite, frequente, servido em recipientes de louça, com iogurte ou queijo era do agrado geral,
As aves de capoeira e selvagens, recheadas por norma com carneiro, grelhadas no espeto, eram acompanhados com ameixa seca, pistacho, mel e geleia. Quando servidas eram borrifados com água de rosas e ornamentadas com ovo cozido, inteiro ou  metade.

 Os ibéricos apreciavam os galináceos gordos “de melhor sabor” que consumiam em marinadas feitas com vinagre ou leite azedo. Os habitantes de Córdoba apreciavam uma sopa de fatias de pão embebidas em caldo de carne fervido com ervas aromáticas e muita hortelã (séc. XIV).

II- OS BANQUETES
Tinham grande significado, podiam durar dias e eram organizados com pompa em obediência a ritual rigoroso. Mais que mero acto de comer em conjunto eram manifestações de grande significado, expressão pública dum acto social de comunhão e identidade. Cerimónias de “bem -querer” transmitiam sentimentos e manifestavam aceitação de compromissos. O anfitrião, rei ou poderoso senhor feudal, para marcar o seu poderio face a convidados, atribuía a quem entendia funções menores a desempenhar no festim, modo disfarçado de dar recados ou deixar avisos.
O banquete real, cerimónia aparatosa, servia para apresentar variadas e abundantes ementas em demonstração pública do poder do dono da casa. No extremo de amplo recinto, filas de faisões vistosamente enfeitados, ladeados por bandos de pombos bravos assados pousados no cimo de montes de castanhas que exalavam um aroma agradável e forte a ervas aromáticas.
Ao lado vitelas, ainda atravessadas por fortes espetos, faziam sentir a sua presença por um aroma apetitoso a carne recém-assada.
Enormes panelões fumegantes de castanha cozida com funcho, aos cantos, pareciam guardar o local do repasto.  
Veados e leitões apetitosamente tostados abocanhavam luzidias e douradas maçãs decoravam outros espaços.
Mesas de cavaletes em numerosas filas apresentavam aves, ainda mornas, já trinchadas, à espera das mãos ágeis de esfomeados convivas.
Cântaros e tinas, dispersos e numerosos, bem colocados, cheios de bom vinho, esperavam com impaciência o momento para apagar a sede aos mais sequiosos. O outro extremo da sala, ocupado por ansiosos convidados, onde a mesa do rei, isolada, se destacava por ser mais alta e estar sobre um estrado. Em sinal de submissão era ladeada pelas mesas dos representantes da igreja e fidalgos mais importantes que ufanos demonstravam a honra recebida. O infante D. Pedro, acerca do momento, referia que quando o senhor estava à mesa era má ocasião para pedir favores que só deveriam ser feitos após a refeição ter terminado. Era momento de boa disposição que convidava ouvir e satisfazer pedidos. O senhor quando está com fome ou triste não deve ser incomodado

III-COMPORTAMENTO À MESA
 Uma carta de 1504, depositada no arquivo estatal de Florença, de Niccòlo Macchíavelli para Cosimo de Medici, merece ser referida pela natureza da informação que presta.
Um criado de mesa, ao serviço dos Bórgia, desejoso de agradar, após observar o comportamento de alguns convidados que tomavam lugar à mesa de seu amo, procurou definir regras de comportamento para o repasto. Considerou para isso que o comensal não devia:
- sentar-se em cima da mesa, estar de costas voltadas para ela  ou ao colo de outro comensal;
- colocar as pernas em cima da mesa;
- sentar-se debaixo da mesa por qualquer tempo que seja;
- colocar a cabeça em cima do prato para comer;
- tirar comida do prato do vizinho sem primeiro pedir-lhe autorização;
- colocar no prato do vizinho partes desagradáveis ou semi-mastigadas da própria comida, sem primeiro pedir autorização;
- usar a sua faca à mesa para trinchar nem limpa-la às vestes do vizinho;
- retirar comida da mesa, guarda-la na bolsa ou na bota, para comer depois;
- dar dentadas nos frutos da fruteira e voltar a colocá-los na mesma;
- beliscar ou dar palmadas ao vizinho;
- emitir ruídos resfolegantes ou dar cotoveladas;
- revirar os olhos ou fazer caretas assustadoras;
- meter o dedo no nariz ou no ouvido durante a conversação;
- fazer maquetas, acender fogos, ou treinar-se na arte da pantomina em cima da mesa ( a menos que o meu Amo o solicite);
- soltar pássaros, cobras ou escaravelhos;
- pegar fogo ás vestes  do vizinho ou conspirar, a menos que seja com o dono da casa;
- tanger alaúde ou outro instrumento que possa incomodar o vizinho (a menos que  o meu Amo o solicite);
- cantar, fazer discursos, proferir impropérios e dizer adivinhas lascivas  quando ao lado estiver uma dama;
- não fazer propostas obscenas aos pajens do meu Amo, nem retoiçar com os corpos deles;
- agredir um serviçal, a menos que seja em defesa própria;

IV-CONCLUSÕES
Concluímos que a alimentação retrato da conduta humana é assunto importante que condicionará a qualidade de vida de novas gerações, pois liga passado, que relata como viviam e comiam os antepassados, ao presente, onde em reunião partilhamos o pão, preocupações e experiências na procura de agasalho e segurança, face ao futuro que aponta dificuldades e sugere alternativas. Prevê-se que com brevidade haja cerca de 900 milhões de humanos a sofrer efeitos da fome, enquanto um terço da população dos países “desenvolvidos” terá graves problemas de saúde por má alimentação ajudada por modas pouco sensatas (anorexia, bulimia, diabética, obesidade, etc.). As sociedades mais pobres, menos evoluídas, têm uma média de vida de 45 anos, metade da esperança de vida das sociedades mais ricas ou desenvolvidas, com tendência para piorar se não forem adoptadas alterações comportamentais profundos e imediatos. Alguns governos, atentos à situação, procuram informar e mobilizar os mais jovens para a prática duma alimentação saudável, mediterrânica, para evitar o consumo exagerado de gordura, sal e açúcar. Defendem o regresso a ementas naturais de alimentos conformes à época do ano, sem adoçantes nem conservantes, confeccionados em adequadas receitas regionais.

PARA SABER  MAIS
- Livro de cozinha da Infanta D. Maria de Portugal, Imprensa Nacional. Casa da Moeda, 1987;
- O pajem do Condestável, Edição Magno, 1999; - El País Semanal, nº 1505.
- Um tratado da cozinha portugueza do séc, XV, Instituto nacional do livro, MEC, 1963;
- ARNAUT, Salvador, Dias, O acto de comer em Portugal na Idade Média, I.N.. 1986;

- SANTOS, Mário, José, Azevedo, Jantar e cear na corte de D. João III;

XIV - Comércio Medieval

I - ORIGEM
            O homem ao verificar que sozinho seria incapaz de sobreviver, juntou-se a outros seres humanos, para em conjunto garantir alimento, agasalho, segurança e procriação. A decisão permitiu famílias ou clãs (com antepassados comuns) que se fixaram no terreno para erguer habitação, aldeias, burgos (cidades) e sobreviver com a troca de alimentos entre si. Os burgos na Europa romana, ligados por vias muito utilizadas, eram acrescentadas por nova rede de caminhos ligados por pontes onde o passante era obrigado a pagar portagem mesmo sendo feirante. Os reis e senhores da terra também mandaram melhorar as vias mais antigas, fazer novas, para controlar ou defender o reino em colaboração com a igreja a facilitar o acesso a peregrinos aos santuários ou locais de culto. O trânsito comercial terrestre contudo continuava difícil e pouco praticado, devido à insegurança, custo elevado das portagens e frequentes altos. A gente do campo cultivava, próximo do local onde morava, a maioria dos alimentos necessários à alimentação, que por se estragarem com facilidade eram em pouca quantidade e comerciados com os vizinhos mais próximos. Os cereais, base da alimentação da época, eram acompanhados por vezes com carne das aves e peixe apanhado nas águas mais próximas. O sal foi ganhando importância por conservar a carne e o peixe, só ultrapassado por especiarias vindas do distante Oriente, que dissimulavam o mau sabor dos alimentos quase sempre pouco frescos.

A Península ibérica e a região mediterrânea, em volta do Mediterrâneo, dispunham de alimentos próprios como azeitona, azeite, mel, fruta (laranjas, tangerinas, limões), passas, nozes, amêndoas, pinhões, vinho etc. que pela qualidade e sabor eram muito apreciados e gulosamente consumidos na Europa. Os vendedores ambulantes levavam a mercadoria de aldeia em aldeia, em carroções de quatro rodas puxadas por animais (asnos, mulas, cavalos e raramente bois por serem caros e de andar lento. Os feirantes passavam muito tempo em transito, assim procuravam meios práticos para garantir segurança, transporte e facilidade de venda em locais próprios, conforme desenho da época que mostra a cobertura das carroças como protecção do estado do tempo. O transporte aquático (fluvial ou marítimo), nem sempre possível, cómodo, rápido e barato por os barcos levarem mais carga o que explica a localização e êxito de muitas cidades nas margens ribeirinhas. A actividade comercial originou o nascer da revolução comercial e deu origem ao sistema bancário. As feiras e mercados, diferentes pelo tamanho, natureza e periodicidade serão referidas de modo breve:
- mercado, no princípio da Idade Média (inicio do séc. X) era uma reunião de mercadores  locais que vendiam alimentos a residentes e de lugarejos  próximos. Os servos da gleba (camponeses) vendiam o produto próprio da estação, aves de capoeira, ovos, cabritos coelhos, etc. Podia ser diário, semanal ou quinzenal. O comércio limitava-se à venda a retalho, tinha importância local, pois movimentava-se por norma pouco dinheiro;
- feira, resultou da acção conjugada de comerciantes que formavam um centro comercial de troca por grosso, com interesses de elevado número de feirantes que transaccionavam produtos de regiões distantes, além fronteiras. Surgiu no séc. XIII a comerciar em larga escala, de preferência Maio e Outubro, produtos de consumo pouco habitual (especiarias, metais e tecidos) em actividade que podia prolongar-se por semanas. A natureza, tamanho e complexidade eram obstáculo à preparação e realização anual, no mesmo local, vezes seguidas. Despertava o interesse de grandes comerciantes, parte importante do negócio (produção, distribuição e consumo) em que o valor económico envolvido podia afectar a prosperidade de uma grande região ou mesmo um país inteiro. Apareceu na Europa Ocidental medieval saída da indolência económica em que estivera mergulhada após a invasão islamita interromper a relação comercial com o Oriente. O renascimento da actividade foi ajudado por cerimónias de culto e festas religiosas, poi a igreja desempenhou papel decisivo na criação da “paz temporária” em vigor no período das feiras, que permitiu desenvolver a actividade comercial. As romarias, peregrinações e outras actividades atraíam romeiros de lugares distantes e como cada um era quase mercador as reuniões eram também lugares de troca de produtos. Muitas feiras nasceram junto ao templo dedicado a santo venerado. Em Portugal a maior parte das feiras estava relacionada com festas religiosas, com a Igreja a impedir feira ou mercado no domingo, dia dedicado ao serviço de Deus e descanso semanal.

II – IMPORTÂNCIA
            A actividade feirante, importante na organização medieval, época que impedia a circulação de pessoas e mercadorias, era dificultada por falta de caminhos, insegurança, impostos de circulação: peagem (pessoas) e portagem (mercadorias). O mercado e feira, significativas manifestações económicas e sociais, derivaram da necessidade da troca de produtos (alimentares e outros) que obrigavam à realização periódica em lugares que facilitavam o negócio.
Portugal, a partir do séc. XTV (início da expansão marítima conduzida pela dinastia de Avis) funcionou mais como zona de passagem do comércio marítimo que como região de produção que criava e preparava os produtos. A segurança e privilégios necessários estenderam-se pelo reino a permitir significativo e permanente aumento comercial. O local da feira por determinação real era abrangido pela “paz da feira” que proibia actos hostis (vinganças ou lutas) e punia com severidade quem a não respeitava. A autorização, representada por símbolo (cruz, pano ou chapéu) era presa no cimo dum pau comprido içado no início e arriado no final da actividade. Os feirantes começaram com privilégios (não serem perseguidos ou presos por delito cometido na paz da feira, etc.). Os reis para facilitar a esta actividade criaram a “feira franqueada” (dispensava o pagamento de imposto para comerciar) conforme carta de D. João I (1413) para o mosteiro da Batalha. O local escolhido, defendido por muros (castelo ou cerca) em praça protegida ou em “chão da povoação”. A casa real portuguesa atenta conforme atestam os diplomas dos reinados de D. Afonso Henriques a D. Fernando “garantiam protecção e segurança a feirantes e mercadorias, proibição de serem perseguidos e apreensão dos seus bens, durante a feira como uns dias antes do seu princípio e alguns depois de ela terminar”. D. João I em carta de feira de Tomar (1420) aumentou os privilégios, garantiu a feirantes que não podiam ser presos nem acusados doutros delitos que não fossem praticados na feira e concedeu autorização para porte de arma e utilização de qualquer montada. A feira, centro de troca de mercadoria, foi acontecimento jurídico e comercial saliente, que permitiu o desenvolvimento económico, em contribuição para o sustento e fortalecimento da autoridade real e concelhia. A “carta de feira” não apareceu apenas por iniciativa de rei mas intervenção do Conselho que impulsionava a decisão real. O interesse comum era aumentar a população local e aumento de receitas para estimular o comércio local. Cumpriu valiosa acção social e cultural pelo acesso a noticias e conhecimento oriundo de áreas distantes (colheitas, catástrofes, saberes, etc.) de tudo que é do interesse do povo em geral. Aproximou os homens entre si, motivou solidariedades, criou interesses idênticos, ajudou a criar a cultura idêntica. Melhorou a comunicação, aumentou os agregados humanos e a construção de inúmeros chafarizes. As pedras do mosteiro de Nossa senhora da vitória, na Batalha, “amarelecidas pelo tempo, ganham maior significado ao lembrar que a construção da capela do infante D. Henrique foi possível com o dinheiro feirante da feira de viseu”.(finais do séc. XIV).

III – FEIRAS   MEDIEVAIS DO DISTRITO DE LEIRIA
            A referência breve ao comércio medieval e importância na actividade dos portugLiueses, leva à evocação da actividade feirante:
Localidade
Ano
Rei
Tipo de feira
Leiria
1284-1285
D. Dinis

Ourem
1367
D. Dinis

Batalha
1413
D. Joao I
Franqueada
Pombal
1442
D. Afonso V
Franqueada

PARA SABER MAIS
- RAU, Virginia, Feiras medievais portuguesas , Subsidios para o seu estudo.  Editorial. Presença.1982;

-SERRÃO, Joel, O carácter social da revolução de 1383,Ed.Horizonte, 6ª Ed. Lisboa,1985.

XIII - Escrita Medieval

O costume de alindar o texto com desenhos é muito antigo pois apareceu no Egipto no ano 2000 A. C. conforme o "livro dos mortos".
Bizâncio, capital do Império Romano do Oriente, no séc. XV, teve muita influência em várias escolas (arménia, palestina, russa, síria, etc.) e deu origem no Ocidente à técnica da iluminura que progressivamente foi ganhando adeptos em grande número. Começou com desenho colorido da letra inicial, maior que as seguintes. Manuscritos irlandeses do séc. VII já apresentavam o texto dividido em partes cujo início era assinalado por uma grande inicial, colorida, enfeitada com linhas entrelaçadas, adornada com figuras de animais. O tamanho da letra dependia da posição do desenho, conforme às regras de decoração da época. A ornamentação, ilimitada, (miniatural ou a ocupar a página) em tapete verde, apresentava desenhos abstractos, como os tapetes orientais, ou pequenas iniciais em azulou roxo. As margens (parciais ou totais), decoradas de modo simples ou complexo, em alegre mistura de folhas (acanto ou hera) com aves ou animais de todas as espécies acompanhadas com desenhos de elementos fantásticos, em cores vistosas, reservando a dourada para a página inicial.
O obscurantismo, marca da Idade Média, alegrou-se com o colorido das iluminuras delicadas que ilustravam os textos escritos em pergaminho. A manifestação artística (desenho e pintura) importante, pela estética e informação partilhada com gerações vindouras que assim conheciam variados conceitos (sociais, económicos, políticos, etc.) presentes na labuta diária representada, sobretudo pelo entreabrir da porta do sonho que dava acesso a mundo para além da realidade. Os manuscritos iluminados (pinturas de cores vivas com o texto destacado em negro) apareceram na Europa na queda do império romano, ano 455, e foram executadas até ao renascimento no séc. XV.A técnica praticada na Europa, executada de modo diverso, devido a características de cada centro de produção (ilustrava os pergaminhos) impedirem a integração.
Os exemplares são únicos, merecedores de atenção particular pela diferença dos tratamentos recebidos.


A história do documento medieval escrito, novidade na época, foi marcada por factos que influenciaram a execução evolutiva, como o "códice" (tábua com cera onde se riscavam as letras com estilete), suporte da escrita unido a outros formou uma espécie de caderno. Antepassado do livro marcou o formato dos documentos da época, aliado ao poder eclesial, centro de cultura, influenciou a execução dos códices medievais nos períodos:
- conventual (início do séc. V a metade do séc. XII), juntava a produção de documentos no "scriptorio" (gabinete onde eram escritos) dos mosteiros;
- laico (a partir do séc. XII), as universidades surgidas, mesmo portuguesas (Lisboa em 1288 de Coimbra em 1537), escreviam fora dos mosteiros. A tarefa, trabalhosa, difícil, levou a especializar artífices para executar várias fases do trabalho, em grémios livres ou encomenda (casa real, nobreza, universidades, burguesia endinheirada, etc.) na procura de diferentes dos tradicionais escritos litúrgicos. O trabalho, fatigante, lento, por etapas, executado por sucessivos artistas que iam à vez realizar a tarefa que lhes competia. Começava com a preparação do suporte da escrita, folhas de pergaminho, (peles de cabra, carneiro, ovelha ou cordeiro) preparadas para serem escritas. Mergulhadas antes e durante dias em água aquecida.
O monge copista (copiava os textos) iniciava então a importante tarefa que regulava o trabalho do artista seguinte.
O iluminador (desenhava e coloria o texto) com ornamentação adequada.
A tarefa, meticulosa, executada com o texto escrito, exigia planificação muito cuidada e acertada entre ambos, de modo a definir com precisão os espaços em branco para as ilustrações. As tintas - obtidas com química rudimentar, sem base científica- eram próprias da época, sendo diversas utilizadas. A tinta "negra" de carvão, preferida, era preparada com:
- lenha ou negro de fumo misturado com goma-arábica;
- metal (sulfato de ferro com ácido tânico da madeira de carvalho juntos com goma arábica, coagulante). A reacção química produzia cor negra, translucida e mais brilhante que a anterior.
A tinta "roxa", segunda mais utilizada (cabeçalhos, títulos, rúbricas, iniciais) era obtida com a mistura de sulfato de mercúrio, clara de ovo e goma-arábica;
A tinta "verde" e a "azul" eram utilizadas com menos frequência.
As canetas, de cana ou pena de ave (ganso, pato, pavão) eram feitas pelos copistas utilizadores que se esmeravam na sua execução.
A raspadeira, indispensável, utilizada com frequência, tinha variado uso (afiar a caneta, eliminar com rapidez e facilidade os borrões antes da tinta secar e segurar o suporte da escrita a evitar riscos importunos).
A pedra-pomes ou vidro moído com miolo de pão e gesso eram utilizados no final do acabamento para eliminar sujidade ou gordura da folha de pergaminho de modo a ter apresentação impecável.
A execução da obra, antecipadamente negociada com precisão entre cliente e equipa executante, para evitar desacertos ou opiniões diferentes que por norma originavam atritos, atrasos e alteração de custos.
A protecção da obra acabada (livro) e facilidade de utilização eram obtidas com ordenação das folhas cozidas em caderninhos, no fim encadernadas.
O local onde os monges trabalhavam os textos, frio e incómodo, para evitar distrair quem ali trabalhava (escrever ou ler), tinha por vezes "catafetário" (fornalha) onde os monges aqueciam as mãos. O trabalho, gratuito, executado em silêncio, era dedicado ao Senhor que depois daria a recompensa aos executantes. O copista não teria consciência que a caligrafia, evoluía com os diferentes tipos de letra que iam aparecendo dando lugar a amplo leque de possibilidades caligráficas.
Gutenberg ao inventar em 1468 a tipografia (impressão com letras móveis em relevo) acrescentou um capítulo importante à maravilhosa aventura de partilhar o conhecimento. A descoberta permitiu democratizar o Saber em partilha com um crescente número de leitores, pois o livro deixou de ser objecto de luxo, apenas acessível a gente abastada, passando a ser património universal.

Para saber mais
- MEMÓRIA, La História de cerca, nº 7, Iluminados Medievales, 2007

- RASQUILHO, Rui, Cister e a Europa, Santa Maria de Alcobaça, 2007

XII - Armamento Medieval

I - GENERALIDADES

O Homem para sobreviver fez e utilizou armas (defesa e ataque) ao adversário. Tiveram desenvolvimento constante, fruto do desafio atento entre a defesa e o ataque, em que cada contendor procura vencer o antagonista.
"Fernão Lopes", cronista português, referiu na Crónica de D. João I, as armas utilizadas na Batalha Real (de Aljubarrota) travada no campo de S. Jorge, em 14 de Agosto de 1385.
Vamos tentar agrupar para apresentar com simplicidade algumas das armas:
- "individuais", utilizadas por um individuo;
- "colectivas", necessitam mais de uma pessoa.
- "defensivas" defendem o nosso corpo dos golpes recebidos;
- "ofensivas", para ofender ou atacar o corpo do adversário.

II - ARMAS INDIVIDUAIS DEFENSIVAS

Protecções exteriores
- "pavês": escudo canelado de grande dimensão (cerca de cento e dez cm).
Os besteiros utilizavam-no na vertical, preso ao chão por estaca, para permitir armar as bestas em segurança e orientar a pontaria por orifícios;
- "escudo": prancha de madeira reforçada com material apropriado (cabedal endurecido).Os cavaleiros ao proteger as pernas com cota de malha, joelheiras e caneleiras (finais do séc. XII) começaram a utilizar escudo menor, redondo, plano, individualizado com o "brasão" (símbolo) do utilizador. Passou depois a triangular com o bordo superior recto e o inferior redondo ou em ponta. Estava seguro e era manobrado por correias presas à sua face posterior.

Protecções do corpo
- "loriga": arma defensiva (séc. XII e XIII) que protegia o tronco, cujo nome derivava de "loto" (correia de cabedal) usada para reforçar a veste. Era uma protecção de tecido tratado ou reforçado com cabedal, utilizada por peões e cavaleiros pouco abastados, como "cota de malha" ou "camisa de ermes"
- "cota de malha": protegia o corpo (simples ou dupla) com elos metálicos, ligados entre si, em que cada um ficava entrelaçado com quatro elos vizinhos.
O fabrico melhorou (séc. XIII) mas continuou frágil, a garantir pouca protecção, que apresentava várias inconveniências pois:
- a execução era morosa e cara;
- era pesada (mais de quinze quilos) e quente (acima de 37°);.
- ao receber uma pancada forte os elos partiam, enterravam-se na carne e davam origem a infecções muito graves (septicémia);
Para evitar ou reduzir as desvantagens usava-se sobre a cota de malha um "Ioude/"(túnica larga de mangas curtas) de tecido rijo e almofadado com feltro ou cabedal na frente e costas, bordadas com o brasão do utilizador.
(O loudel de D. João I está exposto no museu Alberto Sampaio em Guimarães)

- "armadura" ou "emês": conjunto de peças metálicas anatómicas, usado pelos homens de armas e cavaleiros para se defenderem. Eram chapas de metal,
resistentes, bem polidas, que facilitavam o deslizar das armas contrárias, ligadas ou articuladas entre si, por atacadores de cabedal ou dobradiças.
Completa tinha cerca de duzentas e cinquenta peças com o peso aproximado de quarenta e oito quilos (finais do séc. XIV), cuja segurança era normalmente
reforçada por uma cota de malha usada por baixo.
A cabeça, sensível, merecia particular atenção, para garantir mais comodidade, segurança e mobilidade do guerreiro. A protecção evoluiu ao longo do tempo;
- "coifa": peça em malha, usada sob outra protecção da cabeça "elmo" ou "bacinete";
- "chapéu de guerra": tinha copa baixa e aba muito larga (séc. XII), era útil no assalto a castelos pois protegia de projécteis lançados do alto;
- II capelo" protecção cónica duma peça, em ferro forjado, ou várias rebitadas entre si. Tinha "nasal" (barra vertical), protectora do nariz e "abas" a resguardar o rosto e ombros. O topo pontiagudo, foi substituído por peça cilíndrica (finais do séc. XII), por melhor resguardo de pancadas de lança que resvalavam na superfície arredondada. Uma chapa de ferro com aberturas protegia a face e permitia ver e respirar;

-" e/mo de cano ou baú/": cilíndrico, reforçado, incómodo pelo peso (superior a 6kg). As pesadas maças de armas permitiam pancadas de grande violência no alto da cabeça do adversário, o que obrigou a alterar o topo dos elmos para facilitar o resvalar dos golpes com apoio nos ombros do combatente para ter mais firmeza;
- "bacinete": devido ao peso do elmo de cano ou baúl, apareceu um capacete de ferro moldado à cabeça (finais séc. XIII). Tinha copa alta pontiaguda que protegia a nuca e cabeça com excepção da face, defendida pela "cara ou volante" (protecção móvel) com aberturas para ver e respirar. A segurança foi depois alargada aos ombros, peito e costas por cota de malha fixada no bordo .
- "barbuda": terá aparecido no reinado de D. Fernando, variante do bacinete, caracterizada por nuca larga e mais comprida, a proteger a face que cobria toda a barba, origem do nome;
- "capelina": constituída por copa alta de gomos reforçados com tiras de ferro.
Tinha pequena aba para protecção do pescoço e ombros. Era muito usada por peões por ser barata e de fácil execução. Arejada, leve, substituía em tempo
quente, o pesado e abafado elmo fechado;
- "e/mo boca de sapo": o peso não impedia ser usado em confrontos armados Uustas e torneios) compensado pela segurança que garantia (finais séc. XIV); .
- "emez" ou "armadura": protegia o corpo na totalidade ou parcialmente e era composto por peças variadas como:
- "babeira": garantia protecção do queixo e pescoço. Estava normalmente associada ao bacinete;
- "peitoral": protegia o peito, como o nome sugere;
- "amês de braço": conjunto de placas metálicas, articuladas entre si, que, protegiam o braço (do ombro à mão). Era composto por "ombreira" (ombro);
avambraço"(braço); cotove/eira"(cotovelo); "rebraço"(antebraço); "manopla" (mão) ;
- "panceira": conjunto de peças suspensas da cintura para sua protecção e da barriga;
-  "fraldão": peça em malha destinada à protecção do baixo-ventre;
- "ernez de perna": conjunto de peças metálicas, articuladas, a proteger a perna (da anca ao pé). Era constituído por "coxote" (coxa); "joelheira"
(joelho); "caneleira" (canela) e "sapata" (pé);

III - ARMAS INDIVIDUAIS OFENSIVAS

- "alabarda": arma de haste comprida com a extremidade ou cabeça em forma de machado (lâmina muito larga com gancho lateral) para derrubar o cavaleiro atacante. Era também encimada por espigão afiado para ferir;
- "arco inglês"(long bow): até ao renascimento as mesmas armas eram utilizadas na caça e na guerra e depois construídas conforme o fim a que se destinavam. O "arco" passou a arma oficial inglesa (D. Eduardo I), com cerca de cento e oitenta centímetros (altura do atirador), em teixo, madeira que aliava a rapidez à flexibilidade. Utilizava uma corda torcida (tripa ou cânhamo), fixada em peças de chifre encaixadas nas extremidades do arco que quando puxada atrás e libertada lançava a seta. O arco exigia um guerreiro forte, bem treinado, para atravessar tábuas de castanheiro com a espessura de vários centímetros.
O alcance variava com a qualidade da arma e a força do utilizador, rondava os duzentos e quarenta metros. Tinha a "cadência de tiro" (disparos por minuto)
até doze setas e cada atirador dispunha duma" dotação individual"1 (número de setas para uso próprio), de quarenta e oito setas. As setas do comprimento do braço podiam ser de natureza diferente (esteva, bétula ou freixo) que na extremidade posterior apresentavam "rectrizes" (lemes de penas de ave), para estabilizar o voo. As pontas, metálicas, eram untadas com sebo para facilitar a penetração no alvo. Em combate era disparado na direcção do alvo, mas com bastante inclinação para cima, de modo a obrigar a seta a fazer um percurso curvo. Muitas setas disparadas ao mesmo tempo formavam uma cortina vertical para deter o ataque da cavalaria adversária. Foi utilizado na Batalha Real (de Aljubarrota) pelos arqueiros ingleses com bastante êxito.
- "bests": generalizou-se na Península Ibérica (finais do séc. XII) ao substituir o arco árabe de curva dupla, quando veio para a Europa com I Cruzada. O seu poder e eficácia causaram grande admiração que levou a Igreja (II Concilio de Latrão em 1139), a proibir a utilização entre cristãos, sob pena de excomunhão,
Apontada directamente ao alvo disparava um "virote" (seta de trinta a cinquenta centímetros) com ponta triangular de ferro, de vários feitios, conforme o fim a que se destinava. O nome deriva da "rectriz em espiral" que obrigava a seta a virar ou rodar em torno do eixo enquanto fazia o percurso aéreo. O movimento tornava a trajectória mais direita, permitia a seta chegar mais longe e maior capacidade de penetração no alvo. Tinha a ponta envenenada com o suco extraído duma erva conhecida por "erva besteira". Podia disparar "bodoques" (bolas de barro) e "pelotes" (projécteis de chumbo). Cada besteiro dispunha de trinta virotes como dotação pessoal. Muito potente, com alcance superior a duzentos e sessenta metros, tinha coronha de madeira sobre a qual se cruzava na horizontal, a noventa graus, um arco que funcionava com corda de linho ou cânhamo. A corda era retesada e segura num entalhe pela "noz", peça dura com o feitio de um cilindro deitado, accionado pela alavanca (gatilho) que a obrigava a rodar e libertar a corda que disparava o virote. O arco de madeira foi substituído por um de aço, mais potente (séc. XIV) que exigia muita força para armar. O arco metálico obrigava a utilizar mecanismos para esticar a corda até ficar preza pela noz. Os aparelhos de armar deram nome às bestas (gafa, polé, torno, garrucha e cranequim). A potência da besta com arco de aço era enorme e não havia armadura que resistisse ao virote disparado.
Conta-se a ilustrar esta força, que em batalha um virote atravessou a perna do cavaleiro (protegida pelo arnês) arreio, cavalo, saiu do outro lado e atravessou a perna contrária do mesmo cavaleiro.
Havia também as bestas de garrucha, mais leves e menor alcance, com estribo onde os besteiros enfiavam o pé para puxar a corda com o gancho que traziam enfiado no cinto até a prender na noz. Os besteiros portugueses utilizaram com êxito as suas bestas na batalha Real.
A importância da utilização do arco e da besta nas batalhas medievais torna interessante uma comparação rápida entre elas:
Vantagem da besta
- a besta "arma que mata e não espanta", permitia a aproximação silenciosa, com a arma pronta a disparar de surpresa sem denunciar a presença ao
adversário;
- os movimentos amplos para armar o arco, obrigam a posição de disparar com o atirador de pé, (alerta o adversário) e a corda esticada força disparo imediato;
- a besta lançava a seta mais longe que o arco.
Vantagem do arco
- a corda da besta, contrariamente à do arco, não podia ser retirada molhada (caso de chuva), o que provocava imprevista e frequente inoperacionalidade
- a besta era mais pesada que o arco (cerca de sete quilos) e mais difícil de utilizar;
- um arqueiro podia disparar até doze setas por minuto( velocidade de tiro)
enquanto um besteiro não disparava mais que quatro virotes (às vezes)
- "cutelo": arma rústica, camponesa, com lâmina de ferro dum gume tem cabo de madeira;
-"daga": arma pontiaguda de dois gumes, mais comprida e larga que o punhal;
-"dardo": espécie de lança, curta e delgada, para arremesso a curta distância;
-"espada": símbolo de chefia e poder, tem significado cavalheiresco de glória.

A Igreja apercebendo-se do seu valor santificou-a, tomou-a símbolo da Cruz e protecção contra o mal. O possuidor sentia-se obrigado a proteger a Igreja. Foi estabelecida forte afeição entre o cavaleiro e a sua espada, pois identificava nela a virtude do comportamento que moralmente era obrigado a cumprir. A simplicidade da arma, sem artifícios, recordava comportamento simples, austero, voluntarioso, distante de interesses materiais, dedicado ao serviço de ideal superior numa prática da fraternidade ao serviço dos mais desprotegidos.
A lâmina direita, pontiaguda, de dois gumes, impunha consciência recta, uma só palavra de verdade sempre assumida. A honra de cavaleiro obrigava ao respeito da palavra dada, impedia a falta à verdade e uso de artimanha para mascarar desejos sem justificação. Presença constante na conduta mais importante do homem adquiriu enorme valor espiritual , considerada por isso objecto sagrado. O tempo trouxe mudanças que brevemente vamos recordar:
- o reinado de D. Sancho I (início), talvez pela Cruzada, trouxe a utilização de armaduras de muitas peças que alteraram o armamento ofensivo.
- até ao séc. XIV tinha guardas direitas, era leve( mil e duzentas gramas), curta (até cento e dez centímetros) ,própria para atacar adversário com cota de malha, pois a lâmina (robusta, larga e sem ponta), servia para "talar" (bater e derrubar).
- alterou-se bastante, ficou mais comprida, com lâmina de bico e guardas curvas, o que deu origem a outras armas como:
- "espada cinta": ligeira, usada em campanha, no lado esquerdo da cintura;
- "espada de armas": mais comprida e pesada, era transportada penduradano lado esquerdo da sela. Salientou-se o "estoque", pontiagudo, para ferir nos intervalos da armadura;
- "espada de duas mãos": bastante grande, com punho de duas mãos, para golpear com grande violência. A lâmina não tinha gume (ricasso) junto ao guarda mão, cerca dum terço, para ser utilizada como lança curta.
Este tipo de arma era composto por cinco peças:
- "pomo": botão saliente no topo do punho que equilibrava e garantia a ligação entre todas as peças. Era utilizado no "golpe de misericórdia", (pancada forte) no alto da cabeça do adversário para lhe acabar com o sofrimento;
- "punho": parte da haste que permitia utilizar a espada (uma ou duas mãos);
- "guarda-mão": haste, direita ou curva, que protegia a mão que segurava a arma dos golpes da arma do adversário;
- "Jãmina": parte da espada que feria o opositor, temperada, para ser flexível e resistente aos golpes. Era aquecida até ficar em brasa, mergulhada em água fria e protegida por bainha de duas ripas de madeira de cedro envolvidas em pele de gamo;
- "facha ou acha de armas": machado de guerra com cabeça em forma de martelo, era manobrado com duas mãos devido ao peso. Tinha muito sucesso no combate corpo a corpo, pois permitia dar violentos golpes verticais, mortais, no alto da cabeça do antagonista. Desempenhou papel decisivo na batalha Real no confronto entre Sandoval, fidalgo castelhano, e D. João I em que o rei português foi salvo por Martim de Macedo da Ala dos Namorados.
- "funda": constituída por duas tiras de cabedal ligadas à "colher", (zona larga) onde era colocado o projéctil a lançar. Muito vulgar, era utilizada pelo atirador que após colocar o projéctil na colher, agarrava as pontas, volteava-as com velocidade crescente e ao largar uma das tiras atirava o projéctil à distância.
- "lança": arma significante do cavaleiro medieval, era constituída por ponta, canteira, base e ferro {da base para a ponta). A zona de junção conteira-haste era marcada com a "arandela" (guarda metálica circular) , para proteger a mão que segurava a lança;
- "lança de armas": com cerca de quatro metros era utilizada por guerreiros montados ou apeados colocados nas filas da frente;
- "maça": espécie de cacete curto com cabo cilíndrico e volumosa cabeça esférica de ferro guarnecida por conjunto de facas grossas, cortantes, radiais .
Era utilizada para desfazer a armadura do antagonista;
- "pique": lança muito comprida, com mais de cinco metros, utilizada por combatentes apeados para deter a cavalaria inimiga atacante;

IV - ARMAS COLECTIVAS

Na Idade Média os chefes de forças combatentes evitavam lutas em campo aberto, consideradas breves e de resultado duvidoso. O confronto mais vulgar era um dos contendores, por norma o mais fraco, refugiar-se num sítio fortificado que o opositor ía cercar e procurar conquistar. Para isso o atacante utilizava armas volumosas e pesadas que exigia o esforço de vários homens e por isso considerada colectiva. Umas eram utilizadas para proteger atacantes na aproximação às muralhas (anteparos, galerias e torres) e outras conhecidas por "engenhos de bater" serviam para destruir as defesas (catapultas, balistas, trabuquetes).A terminar iremos apresentar apenas duas:
- "catapulta": de estrutura, conforme à função e técnica do construtor, era guardava cuidadosamente a proteger o segredo da obra. Pesada era construída no local onde seria usada, depois desmontada e a madeira reaproveitada. Compunha.se de alavanca de cerejeira a terminar em colher onde se colocava o projéctil a lançar. Na outra extremidade era enrolada uma corda torcida de linho e cânhamo, forte e elástica, para impulsionar o braço da catapulta que rodava que quando parava lançava o projéctil à distância. A dimensão da arma e violência do disparo exigiam estrutura forte. Um braço de três metros lançava pedras com vinte e três quilos a quatrocentos e onze metros.
- -lIbombarda ou trom": arma de fogo primitiva em ferro forjado com um "calibre"",(diâmetro do interior do cano ou tubo) de catorze centímetros (cerca)..
Utilizava os gases da combustão da pólvora no interior do cano para lançar uma bola de pedra ou ferro de nove quilos a uma distância de cerca de mil
metros. Parece ter sido utilizado, com pouco êxito, pelas forças de Castela na Batalha real ou de Aljubarrota.

PARA SABER MAIS
-BAENA, Miguel Sanches, Torre de menagem do castelo de Leiria. Annamento medieval CML;
-LOPES, Fernão , Crónica de D. João I, Ed.Barcelos, 1990;
-MONTEIRO, João, Gouveia, Aljubarrota revisitada, Imprensa da Universidade- Coimbra,2001;
-OLIVEIRA, fredertco , Alcides,de, Aljubarrota dissecada, CHM -1970;
-TEIXEIRA, Marta, Emília, Amaral, Sobre o loudel de D. João I, ME.SEIC, Lisboa, 1973.

XI - Castelo medieval

I - FUNÇÃO, CONSTITUIÇÃO E DESIGNAÇÃO DE ELEMENTOS ARQUITECTÓNICOS

O castelo altaneiro é refúgio dum senhor da guerra que aproveitava para dominar o espaço em redor. Sobreviveu a evoluir na adaptação a novas armas em função ao terreno escolhido para edificação. É construção fortificada típica medieval, composta por variados edifícios com funções próprias, cercados por muralha reforçada com torreões espaçados, também ameados, a criar espaços fechados ao exterior. Tem características próprias da região onde foi implantado como o castelo ibérico cristão de três pátios:
- Baixo, albacar, refúgio de moradores próximos fugidos da guerra com haveres e gados (vacum) onde em tempo de paz se treinava o uso de diversas armas;
- Intermédio, da alcaidaria, onde o alcaide reunia e dava orientação à sua gente para assegurar a defesa possível;
- Superior, posto de comando junto da torre de menagem, último reduto da defesa.
Construído em lugar alto, ajudava os moradores a lançar projécteis do alto das muralhas e dificultava a acção dos atacantes cansados pela subida ingreme para se aproximarem do castelo.
O rei na Península Ibérica, utilizava o castelo para garantir a organização, administração e defesa deste centro dinâmico do desenvolvimento de lugares edificados que facilitava o crescimento económico, administrativo e social do reino. As altas muralhas reforçadas com torres variadas, afastadas entre si, coroadas de ameias, eram o principal meio de defesa que permitia observar de longe o espaço em redor. Robustas, espessas, de dois metros e meio, em ”argamassa da época” (cal misturada com areia e água), eram defendidas na parte mais exposta pela “cava” ou fosso para manter o atacante à distância e impedir a construção de túneis. A vigilância e o controlo do espaço exterior eram obtidos do caminho protegido no alto das muralhas, ajudados por “seteiras” (fendas verticais para ver à distância e horizontais a utilizar em direcção), por vezes cruzadas entre si. Alargadas para dentro facilitavam a utilização de arcos e bestas que disparavam setas e virotes. A entrada principal, alvo prioritário do invasor, merecia atenção particular do defensor que a reforçou com a “ponte levadiça” (plataforma de madeira em ponte para atravessar o fosso) levantada no ataque e robusta grade vertical de ferro e madeira dura (carvalho) que terminava em ponta na extremidade inferior, manobradas do interior por dispositivo mecânico. A muralha protegida por “barbacã” (muro exterior, mais baixo, próximo), primeira defesa, a formar outro anel (completo, parcial ou limitado à porta que defendia designada por “barbacã de porta”).       
A “torre de menagem”, símbolo guerreiro, emblema da autoridade feudal e instalação pessoal do “alcaide” (governador, senhor e comandante da guarnição do castelo) e família, servia como posto de comando. Alta com cerca de dez a vinte metros permitia dirigir a defesa e atingir com projécteis o espaço envolvido pelas muralhas. Auto-suficiente, preparada para resistir ao assaltante até chegada de reforço, tinha uma entrada, elevada, a vários metros do solo, que exigia escada de madeira, recolhida em caso de ameaça. Dispunha de vários pisos, com serventias diferentes:
- piso térreo, sem  aberturas servia como prisão, armazém, cisterna ou paiol;
- 1º piso, com porta de entrada e seteiras servia de sala de audiência;
- pisos superiores, arejados e seguros eram alojamento para o alcaide e família ou armazém de  equipamento mais importante à defesa.
O entendimento da complexidade da edificação convida a explicar alguns elementos arquitectónico, referidos com brevidade:
-  “torre albarrã”, distante, ligada à muralha por pequena ponte de pedra, barrada  para evitar a conquista do castelo, utilizada  quando o atacante se preparava para escalar e iniciar o ataque;
- couraça( torre redonda  de origem árabe) em local necessário á protecção de algo importante, vulnerável e próximo (poço).
- cobelo(torre redonda) que facilitava a observação, o uso das armas em várias direcções e o ricochete dos projécteis do inimigo;
-pano de muralha,  muralha compreendida entre dois torreões;
- porta da traição, pequena porta oculta ou dissimulada  unto ao solo ou pouco acima, utilizada pelo defensor para fazer “sortidas” (ataques de surpresa) ao atacante ou fuga  quando verificavam a impossibilidade de defesa.
A importância do castelo resulta da natureza da construção e localização valorada pela distância de outros mais próximos. A observação atenta da fronteira de Portugal permite verificar que na época era defendido por castelos dispostos em “linhas de detenção” para deter o invasor, que as cidades importantes, merecedoras de mais atenção, estavam rodeadas por castelos dispostos em “defesas de profundidade”, uns atrás dos outros, para orientar, dificultar ou impedir o acesso do atacante.

II- EVOLUÇÃO DO CASTELO

A silhueta altaneira do castelo é indício e fonte de informação militar, politica, social económica e cultural, confirmado por Mário Barroca, historiador, ao referir que ” ajuda a entender o território pátrio”. A evolução dos castelos devida pela necessidade de controlar o efeito de novas armas e permitir o cumprimento da missão para que tinham sido construídos. A alteração, lenta no tempo, será referida com brevidade nas características mais salientes de cada fase;
Castelo românico, do séc. XII, para resistir a cercos demorados. A  torre de menagem era quadrada, central, e a muralha  alta, ameada, com adarve” (caminho da ronda), reforçada  em cada canto com torreão quadrangular, que apresentava seteiras a alturas diferentes.
 Castelo gótico, do reinado de D. Diniz, apresentava as características:
- torre de menagem, poligonal,  junto da muralha a permitir  participação mais eficaz na defesa, mais grossa, poligonal, para  melhor desempenho;
- as outras torres “adoçadas”(encostadas à muralha) são mais numerosas para dificultar a acção atacante como  escalada ou abertura de túneis;
“balcão”(pequeno varandim com ameias) apoiado em ornatos salientes de pedra com “matacães”(aberturas circulares no chão usadas  para lançar projécteis sobre o atacante ( base da muralha e  entradas);
- “barbacãs”, parciais ou extensas protegiam as muralhas como obstáculos que  canalizavam, atrasavam ou impediam a aproximação dos atacantes.
-“ fortificação abaluartada”,  surgiu em finais do séc. XIV  nos reinados de D. Fernando e D. João I, com a utilização de armas “pirobalísticas” (de pólvora), que obrigou a grandes alterações nos castelos edificados ou à construção de outros preparados  para utilizar as novas armas e suportarem com êxito o efeito dos projécteis. A alteração consistiu na redução em altura, paredes exteriores mais grossas e inclinadas na vertical e horizontal para serem alvo menor, suportarem o impacto e facilitarem o ricochete dos projécteis. As torres foram esquecidas para sempre e procurou-se utilizar as armas de pólvora em favor do defensor pela adaptação das fortificações de modo a serem utilizadas com êxito.

III- O CASTELO DE PORTO DE MÓS

O castelo senhorial de Porto de Mós, localizado próximo de S. Jorge, campo onde se travou a batalha Real, é referência oportuna. Encavalitado no alto de outeiro de 148 m de altura, sobranceiro ao rio Lena, onde foram encontrados numerosos achados e vestígios de épocas remotas, permitem concluir que já era importante à chegada de romanos que o teriam ocupado, transformado em base militar e centro político de alguma importância.
D. Afonso Henriques garantiu a segurança da corte em Coimbra, com a conquista de Leiria e dedicou particular atenção aos castelos de Montemor e Soure, profunda penetração em terra moura. O campo cristão em faixa a Sul do rio Mondego, de difícil controlo, importante como núcleo de defesa,  com os castelos de Leiria, Ourém e Porto de Mós.  Fuas Roupinho, alcaide do castelo de Porto de Mós, teve acção importante, mas após a sua morte os moiros conquistaram e destruíram o castelo.
D. Sancho I em 1200, mandou reparar e ampliar o castelo e construir cerca amuralhada de protecção em volta do povoado.
D. João I e D. Nuno na crise de 1383-1385 prepararam a hoste de Portugal para a batalha Real. Utilizaram Porto de Mós como “ basse de ataque” donde se fez o reconhecimento do terreno, foi organizada e recebeu as últimas ordens. O castelo, sentinela vigilante, sobressia no casario que a Sul, a seus pés, parecia prestar vassalagem. Pentagonal tem em cada canto torre encimada por pináculo verde e apresenta ampla varanda, debruçada sobre a porta principal que permite repousar a vista no verde mimoso do vale, limitado por montes propícios a animadas ”montarias” (caçadas).  
O terramoto de 1755 provocou enorme estrago que muitos anos depois se procurou reparar. A superfície exterior com as torres e muralhas coroadas de cachorradas” (pedras salientes) reforçada com paredes salpicadas de janelas e portas góticas, algumas com colunas de “capitel” (parte superior da coluna) finamente trabalhados provocam agradável efeito decorativo. As seteiras e janelões, como olhos vigilantes, parecem estar atentas aos locais com mais possibilidades de terem sido utilizadas nos ataques inimigos A natureza ingreme da elevação aumenta o valor defensivo do castelo, que dispensa a protecção do fosso e ponte levadiça. Os atacantes após difícil l subida tinham de enfrentar a pesada porta de ferrolho reforçada com forte grade enquanto suportavam densa chuva de projécteis (pedras, virotes, setas, líquidos a ferver, etc.) do cimo das muralhas com invulgares ameias horizontais que permitiam o lançamento em segurança.

PARA SABER MAIS
- BARROCA, Mário, Jorge, Do castelo da reconquista ao castelo românico, Direcção do Serviço Histórico - Militar, 1991;
- MONTEIRO, João, Gouveia, Os castelos portugueses nos finais da idade Média, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Ed. Colibri;
- NUNES, António, Pires, Dicionário temático de arquitectura militar e arte de fortifica. ,Direcção do Serviço histórico. militar, 1991;
- RAMOS, Luciano, Justo, Castelo de Porto de Mós, Câmara Municipal de Porto de Mós. 1971.



VII - Ermida de Nossa Senhora da Vitória (S. Jorge)

Nuno Alvares Pereira em agradecimento a Virgem Maria fez erguer uma ermida no local onde içara o estandarte na batalha Real, a 14 de Agosto de 1385, que o povo deu o nome de S. Jorge por figurar na bandeira. O templo, de uma nave, restaurado conservou vestígios góticos primitivos como o torreão amuralhado da capela-mor e gárgulas. A ermida mede cerca de 19x13m e a capela-mor tem "abside" (parede semicircular ou poligonal por detrás do altar). o cruzeiro a Sul, próximo, lembra a luta entre Martim de Macedo da Ala dos Namorados, a salvar o seu rei de Sandoval, nobre castelhano.

A imagem de Nossa Senhora da Vitoria a encimar o altar-mor, a quem o templo foi consagrado, parece velar pela sua utilização. O padre Louro no "Couceiro ou memorias do bispado de Leiria" refere que a imagem teria acompanhado D. Nuno nas campanhas guerreiras o templo apresenta na nave (espaço destinado a fieis) dois altares. Á esquerda, lado do evangelho, está uma escultura em pedra que representa S. Jorge, o Bem, a ferir com lança o dragão infernal, o Mal, derrubado a seus pés. Á direita, lado da epístola, apresenta o Condestável a empunhar a sua bandeira, que o recorda como guerreiro e monge, formas de servir um ideal elevado.
Teria existido em seu tempo junto á parede esquerda, a meio da nave, um púlpito de madeira apoiado no chão que desapareceu. A abóboda da capela-real apresenta no fecho das colunas "artesoadas" (trabalhadas por artesãos) o pelicano de D. Joao II, possível indício de restauro da época.
Sublinha-se que a ave, ligada a Caldas da Rainha, simboliza a fraternidade. O templo apresenta na frontaria uma pedra com Inscrição em caracteres góticos maiusculos a confirmar ter estado içada no local a bandeira de D. Nuno na batalha Real. Refere o ano 1431, era hispânica, em vigor em Portugal ate 1422, quando passou para a de Cristo, que permite concluir ter sido inaugurado em 1393. Foi redigida possivelmente conforme indicações de D. Nuno e reza assim:
ERA: DE MIL: E QUATRO CENT
ETRINTA: EHUU: ANOS: NUNAL
VARES: P(ER)EIRA: CONDE: ESTAB'
MANDOU: FAZER: ESTA: CAP
EELA: A ONRA:DA VIRGE: MARIA: POR
QUE: EN O: DIA: QUE: SE FEZ: AQI: A BA
TALHA QUE:ELREY: DE PORTUGAL: OUVE: CO: ELREY
DE: CASTELA: ESTEVE: EN ESTELOGAR: A BANDEI
RA: DO: DITOCONDE: ESTABRE:

A pedra apresenta no bordo inferior, um corte em V invertido que interrompe a ultima linha da Inscrição. Julga-se que a primitiva porta principal do templo teria sido ogival com a lápida colocada sobre o fecho superior conforme parece sugerir a marca. Em época posterior, numa reconstrução da fachada terá sido mudada para a parede lateral esquerda, onde se encontra. A fachada fronteira apresenta num nicho á esquerda, uma "quarta" (pequena bilha) sempre cheia de água para matar a sede a caminhantes, conforme tradição do século XV e compromisso de D. Nuno.
Um cruzeiro de procissão a sul, recorda o duro confronto entre D. João I e o experimentado cavaleiro castelhano D. Álvaro de Sandoval onde se distinguiu o cavaleiro português da Ala dos Namorados, D. Martim Gonçalo da Maia pelo socorro eficiente e oportuno ao rei de Portugal.
Fernão Lopes partilhou com pormenor o feito no relato da batalha Real. A importância do templo ultrapassa o valor patrimonial, garante a memória do confronto, permite conhecer a localização exacta e conduta das forcas antagónicas ao considerar o local onde foi erguido. O valor defensivo do terreno conjugado com o alcance das armas mais letais (arco e besta) e manobras tácticas em uso na época, possibilitaram o conhecimento do local onde a forca portuguesa teria esperado e vencido o invasor.
O rei de Castela, face á dificuldade de abordar a forca oponente evitou o confronto e contornou a posição portuguesa pelo lado do mar na procura de terreno favorável á sua vontade. Em Chão da Feira, que permitia ampla manobra de rotação, preparou-se para atacar pelo sul a forca portuguesa.
D. Nuno atento, antecipou-se e mudou ordeiramente a hoste para outra posição, dois quilómetros a sul, onde se preparou para afrontar o invasor vindo do Sul. Reforçou os acidentes naturais, ribeiras da Mata (Oeste) e Madeiros (Leste), a garantir o melhor desempenho, com:
- "abatizes" (árvores derrubadas) com a copa virada para o lado de onde viria o atacante, para lhe dificultar a visão e perturbar o movimento;
- "covas de lobo" (escavações mais ou menos compridas com largura e fundura aproximadas de setenta centímetros) disfarçadas com a rama de arbustos para servirem de armadilha e provocarem a queda de surpresa das montadas do invasor;
- “fossos" (valas com profundidade aproximada dum homem em pé) que se destinavam-se a deter os cavalos e canalizar o movimento.
As escavações terão sido executadas por cerca de 1000 “servos da gleba” mandados por Frei João abade do feudo de Alcobaça.
D. Nuno entretanto instalou o comando, sinalizado com a bandeira, em pequena elevação que facilitava a defesa por permitir a visão sobre o campo de batalha, no local onde foi edificada a ermida.
A equipa militar orientada pelo coronel arqueólogo Afonso do Paço, 1959, pôs a descoberto a Leste e Norte da ermida de S. Jorge, “o grande fosso”, com a direcção sul- norte, que tinha cerca de 190 m de comprido, 0,8 m de largura e profundidade. A Sul, foi descoberta uma zona fortificada de 150 por 100m, com 4 fossos e 40 filas de covas de lobo de 60 a 80 m de comprimento. As covas de lobo (830), dispostas em espinha relativamente ao fosso Norte, possível flanco Leste do dispositivo português virado a sul.
A ermida foi referida inúmeras vezes em variados documentos por:
- Fernão Lopes, na crónica de D. João I;
- Frei Agostinho de Santa Maria no Santuário Mariano, 1711, relatou o edificado, funções do ermitão ("...ter sempre agoa para as passageiros..."), entre outros cuidados;
- O Couceiro (publicação impressa em Braga em 1868) referiu a paga ao ermitão, actividades com dependências religiosas e compromissos dos duques de Bragança;
O templo do campo da batalha Real, marco da independência nacional, tem participado em cerimónias de grande sentido colectivo, que de modo breve iremos referir como os cortejos fúnebres de D. Joao I, D. Duarte, D. Afonso V, D. Afonso, filho de D. João II e D. João II.
A participação da ermida de S. Jorge, em nosso entender, não se limitou a participação em acontecimentos relatados por cronistas, apesar de não termos conhecimento de eventos realizados nos cerca de 400 anos que se seguiram aos factos relatados, mas estamos certos que a importância se manteve devido ao fundador, considerado exemplar guerreiro e Santo.
Ate meados do século XX realizaram-se cerimonias anuais evocativas da batalha Real e de D. Nuno e posteriormente o Campo Militar de S. Jorge sob a tutela do Exercito tem comemorado a efeméride com a digna simplicidade própria das cerimónias militares.

PARA SABER MAIS
PAÇO, Afonso do, Capela de S. Jorge de Aljubarrota, Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 1945;
Escavações no campo de batalha de Aljubarrota. Estado actual do problema, edições Brotéria, Lisboa, 1960;
RESENDE, Garcia de, Cronica de D. João II e miscelânea, edição INCM. 1973;

SAMPAYO, Christoval Ferreira y, Vida e hechos del Principe Perfecto, Don Juan Rey de Portugal segundo deste nombre, Madrid, 1926.